A Queda da Casa de Música

Mais uma vez, em exercício para faculdade, foi pedido pelo professor um texto descritivo. Podíamos dissertar sobre qualquer coisa, desde que a descrição do ambiente, do personagem ou da situação fosse o foco. Foi pedido um pouco de narração. Afinal, descrição sem narrador é apenas parnasianismo, não é? hehe. Mas deixando os chatos de lado, vamos ao exercício, que é o que nos interessa. Creio que tive liberdade suficiente pra fazer o tipo de texto que de fato me agrada. Ei-lo aqui:

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A QUEDA DA CASA DE MÚSICA

Era cedo demais para o meu gosto. Daquele tipo de cedo em que o sol ainda está ameaçando aparecer entre as nuvens, depois de uma madrugada mal dormida. Aquele cedo cinco e dez da manhã. As pessoas na rua, afortunadas – pensei comigo – ainda estavam pensando em seu café, e eu já tinha um assassinato nas mãos. A casa era muito velha, rangia só de olhar. Casa de esquina, tradicional, de família antiga na cidade. Os Penber, donos da casa por gerações, haviam sido grandes em tudo. Sapataria, alvenaria, destilaria, mas o último empreendimento antes de tudo dar errado fora uma loja de música. O primogênito Charles Penber era o tipo de excêntrico que cabia na ficha criminal. Me esperava na saleta úmida e escura, logo depois da varanda, casa adentro. Segurava um violão gasto, e dedilhava lamentavelmente uns acordes opacos, tremidos e tristes. Sentei-me num banco abandonado à sua frente. Eu parecia ser o primeiro policial a chegar à cena, pois as marcas do meu sapato na poeira estavam solitárias. Charles, que não havia levantado a cabeça para me olhar de frente, fedia a pólvora.

Olhei para os fundos da casa. A vítima resistiu à Charles, derrubando os móveis espalhafatosamente pelo chão. Os vizinhos tinham alertado sobre o barulho todo, que era descomunal para os irmãos Penber. Algumas gotas de sangue no colarinho e no tórax do violonista, marcas de quem arrastou um corpo ferido. Finalmente ergueu a cabeça. Seus olhos azuis de um tom noturno estavam cansados, denunciando suas noites de insônia e medicamentos. Seu rosto estava abatido, quase esquelético, havia tempos que não tinha uma refeição decente. A pobreza tinha alcançado seu corpo de pedra, grande e imponente, mas curvado pelo tempo, castigado. Os dedos, longos e finos, estavam desgastados pelas cordas de aço do instrumento, prova de que tocava com constância. Suas roupas pareciam ter sido casa de traças e pequenos roedores, esburacadas.

Riu para mim, um sorriso sincero, com todos os dentes amarelados de Marlboro. Ergueu a mão para me cumprimentar, de forma vaga e trêmula. As mãos ainda estavam quentes, a cintura carregava um revólver. Levei discretamente minha outra mão para dentro de meu casaco, e Charles riu de viés, a voz gutural e rouca de gritar. – Não se preocupe, oficial. O meu serviço já foi cumprido. – Ele declarou. Podia prendê-lo ali, o corpo da irmã jogado na banheira do cômodo de cima, o sangue dela em sua roupa, a arma do crime com suas digitais, só não eram evidências mais gritantes que sua confissão, e eu estava curioso. – O que te levou a isso, Charles? – E ele voltou a tocar, desviando o olhar de mim, carregado do mais venenoso orgulho. – É bem simples. Ela nos levou à ruina. Matou minha família. Que fosse junto pro túmulo, é como o mundo demonstra justiça.

Ofeguei, o ar comprimindo meus pulmões. Eu o tinha pego com a mão na massa, ou na viola. Lhe expliquei que teria de leva-lo dali, e ele seria preso pelo que tinha feito e ele riu uma nova vez. Percebi um tom de ironia quando falou que eu é que não entendia a situação. – A casa dos Penber caiu, meu amigo. Essa é minha última música, e foi feita exatamente para este momento. Não acha bonita? – E com alguns delírios, efeito dos medicamentos, ele continuou tocando e cantarolando baixo. Só então percebi que tocava I Started A Joke, dos Bee Gees. Suspirei impaciente, e ele voltou a olhar para mim. Quando me perguntou se eu conhecia a música, respondi que sim, e ele pareceu ficar satisfeito. O barulho dos carros de polícia se aproximando me chamou a atenção para a porta, e tudo o que vi depois foi um borrão. Em um acorde terrível, Charles acertou-me com o violão na costela, no momento seguinte em que eu saquei a arma. Suas mãos descuidadas puxaram seu revólver da cintura, e ele riu uma última vez, porém, com uma tristeza tão profunda quanto o crime que cometera. – Que seja saudosa a queda da minha casa, e que seja lembrada pelos acordes de pólvora, sonora vingança. – E meteu-se um tiro na goela para cima, o tampo da cabeça sangrando, enquanto o corpo monumental espatifava-se no chão. Tudo tão dramático e exagerado, pensei enquanto era socorrido. O exagero, como se sabe, é a matéria prima da piada. Mas esta já perdera a graça.

Morte. Vida.

Acordou aos poucos, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. Tudo estava tão escuro quanto breu. Lá fora já era quase manhã, mas ele não sabia. Na verdade, sabia de pouca coisa, mas de uma tinha certeza: De que sua cabeça doía. Que acontecera noite passada? Não se lembrava de muita coisa, apenas dos primeiros copos de vodka, luzes, conversa, um assobio alto e pronto. Breu. Foi então que, pela primeira vez, sentiu desconforto. Tentou tatear no escuro, se dando conta que também não sabia onde estava. Sentiu um pouco de terra entre os dedos. Sentiu um estofamento puído embaixo de si e ao seu redor, como se estivesse em uma caixa. Uma caixa pequena e desconfortável. Tentou respirar fundo, e outra nova sensação começou a lhe gerar um pouco de pânico… O ar estava pesado, daquele tipo difícil de se respirar, do tipo claustrofóbico e cheio de culpa. Suava muito, pois sentia o rosto muito molhado. Tentou se mexer, sem sucesso algum. A caixa era estreita e não conseguia sequer dobrar muito os joelhos, que logo batiam na parte de cima, produzindo um som opaco. A pontada de pânico puxou um nervo de sua nuca, parecendo marretar a dor de cabeça. E então, um flash. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth!”. Conversa, risada, um bar. Estava sentado na mesa, observando uma garota. Ela não tinha nenhum grande atrativo, na verdade, mas o batom vermelho que usava despertava a atenção dele. Ficava de canto, bebia discretamente, isolada do ambiente. Lábios vermelhos. Estofado. Estava na caixa outra vez, com dor de cabeça. Aquela era a maldita hora em que pedaços de memória começam a brincar com o inconsciente, ele sabia bem. “Onde diabos estou?” Ele falou baixo, escutando sua voz abafada e rouca. A garganta ardeu como se tivesse engolido vidro. Tentou forçar a parte superior do estofado, que não estava muito acima de seu nariz. Nada, nem sequer um movimento. Tentou escutar algum barulho externo. Nada, nem sequer um lamento. Suspirou. Onde diabos estava?

“Kenneth? Está me ouvindo?” Disse uma voz masculina. “Cale a boca, que estou te ouvindo em excesso” ele respondeu. Na mesa do bar, seu amigo lhe contorcia o rosto e xingava qualquer coisa contra ele, e depois ria, mas ele só focava em uma única coisa: Lábios vermelhos. Ela ainda estava lá, sozinha. Fumava, agora, e ele virou o octogésimo copo pra dentro da garganta, que pegou fogo o suficiente pra fazê-lo se contorcer um pouco. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth! Vai acabar vomitando até o que comeu semana passada!”. Mandou o amigo calar a boca e se levantou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido?” Que mais podia fazer, idiota? Iria falar com ela. Sabia que ela também queria. Ah, sim, ela queria sim. Pânico. Dentro da caixa, tentou dobrar os joelhos outra vez, batendo no teto. Repetiu o ato teimosamente por mais duas vezes, com mais força. Não cedia um milímetro sequer. Onde diabos estava? Tentou tatear os bolsos da calça, a coisa mais perto do alcance de suas mãos. Moedas, papel e desesperança. Era tudo o que carregava consigo naquele instante. Lixo, pensou ele. Que é que adianta essas moedas? Pra que merda vou gastá-las, se não consigo sair dessa maldita caixa? “Ora Kenneth, sossegue a bunda gorda na cadeira, não vá atormentar ninguém com essa sua língua podre”. Mas ele não deu a mínima. Estava bêbado o suficiente para falar com qualquer boazuda, e aquela ali não era nada demais. Álcool demais e garota de menos. A calça dela era apertada, a blusa pouco decotada, não mostrando nada que valesse tanto a pena assim. Mas os lábios vermelhos, aqueles lábios sim. Eram eles que o queriam. A garota olhou de viés e continuou a fumar seu cigarro. “Estou falando com você, gracinha. Como se não quisesse atenção com esse jeans apertado, hum?” Ele se ouviu dizer, como um bêbado fedido, se apoiando no bar. A voz dela saía, mas ele não se lembrava dela. Só dos lábios vermelhos, se movendo. Não gostou, seja lá o que ela tenha dito. Quem achava que era? “Está na hora de descer do seu castelo, princesa. Pare de mexer essa boca, e gaste esse batom com coisa melhor”, e ele avançou em cima da garota. Sentiu a mão de seu amigo segurando-o pelos ombros, e o encarou com raiva. “Está maluco, cara?” Tire as mãos de mim, seu bosta! E a cólera o tomou de instantâneo, levantando o punho fechado no ar, mirando exatamente no nariz do rapaz. Antes que percebesse, sentiu um baque forte na cabeça, cambaleou pelo salão e se espatifou no chão. As coisas foram ficando embaçadas.

Seu fôlego pesado o fez arregalar os olhos, mas de nada adiantava. A caixa era tão escura e sua escuridão impenetrável não aceitava sua curiosidade. Tentou outra vez bater o joelho na tampa, com tanta força que sua perna começou a doer. Outra e outra vez, até que sua cabeça começasse a reclamar de dor. Mais dor. “Tem alguém aí?!” ele gritou, e se calou em seguida, arrependido. Sua garganta tinha sido arranhada por gatos raivosos, com certeza.

Morte.

Vida.

Acordou, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. A luz que o atingiu foi tão forte que ficou cego por alguns instantes. E então, viu um teto branco, a luminária pendurada, acesa. Aquele era seu quarto, ou não? Não tinha muita certeza. Mas sabia de uma coisa: Estava com dor de cabeça. A bebedeira do dia anterior o abatia como britadeira. Os músculos do corpo estavam doloridos, e levantar-se da cama foi difícil. E então percebeu: Que é que tinha acontecido com suas pernas? Não eram suas. Estavam mais musculosas, um tanto mais bronzeadas. Olhou seus braços: Estavam mais grossos, maiores. Examinou o abdômen, mais torneado e definido. Foi até o espelho e quase perdeu o coração pela boca. Não era ele que se via no espelho! O cabelo moreno bem penteado, o maxilar quadrado, os olhos azuis arregalados de espanto. Mas… aquele não era… Mas… o que é que tinha… Como é que…? E antes que se desse conta, ficou zonzo demais, caindo com força no chão.

“Onde diabos eu estou?” ele se perguntou outra vez, tateando no escuro da caixa. Respirar o ar pesado e abafado começava a doer, como se tivesse levado um murro direto no nariz. Deu uma nova joelhada no teto, e a dor desta vez foi tanta que teve que desistir da empreitada. Aquilo não era típico dele, pensou. Anos de academia tinham deixado suas pernas resistentes, mas por algum motivo, elas doíam com o menor dos movimentos. Sentiu-se doente. Afora a dor de cabeça, sentia o corpo atrofiado. Sentia certa fraqueza, e muita falta de ar. Seus lábios estavam muito secos. Lábios vermelhos. Caído no chão do bar, estava com medo. “Medo? Que é que sou? Um rato?” Levantou-se e xingou a todos os pulmões, com seu hálito fétido. Arrastou o rapaz pelos cabelos escuros e maltrapilhos. Um pobre qualquer, que não suportava mais. Vivia o chamando de amigo, recusando que pagasse as bebidas, como se fosse um bom homem. Nenhum bom homem andava com ele, sabia bem. Todos o invejavam. Invejavam seus músculos, seus olhos azuis, seu carro e seu dinheiro. Jogou-o na sarjeta e prendeu-o embaixo de seu próprio corpo. “Você é um maluco Kenneth! Saia de cima de mim!” Gritou seu irmão. Sim, agora estava se lembrando. Levara seu irmão para comemorar o noivado. Levaram a noiva também? Seu irmão, semelhante a ele. Cabelos escuros, olhos azuis, exceto o corpo mirrado e a saúde debilitada. Nasceram do mesmo útero, mas Kenneth nasceu mais saudável. Roubava o alimento do irmão. Desde crianças, ele era um empecilho. Sempre doente, sempre carente, sempre o centro da atenção de seus pais. E quanto a ele, o saudável? O bonito? Superior? Pouco se falavam desde a adolescência. E então, recebeu a ligação dos pais, anunciando o noivado de seu irmão, cheios de orgulho. Pro inferno com o casamento e com essa besteira toda, ele pensou, mas não disse nada. Concordou acolher os noivos enquanto estivessem na cidade. Não entendia como seu irmão contentava-se com aquela mulher. Não tinha nada de especial. Pouco decote, nada pra mostrar. Só um par de lábios vermelhos.

“Querido? Está tudo bem?”, ela o apoiou pelas costas, preocupada. Aos poucos, sua cabeça deixava de doer, e ia se lembrando do que acontecera na noite anterior. Estavam brindando. Seu irmão, Kenneth, bebera mais do que o esperado. Sua noiva fumava no canto perto da janela, pois não era permitido fumar nas mesas. Pedira a ela na noite anterior para dar privacidade aos dois. Ele queria dar mais atenção ao irmão, que não via há tempos. Mas Kenneth insistia em lhe rebaixar. Estava acostumado, entendia que era como o irmão lhe mostrava preocupação. Mas as bebidas estavam demais, e ele começou a se portar extremamente mal. Ela escutava tudo de longe, cada vez mais irritada com a má educação do anfitrião. Mas prometera ao noivo deixa-los se entenderem. E foi quando Kenneth veio lhe faltar com o respeito que ela praguejou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido? Não cansou de maltratar seu irmão que veio até aqui te ver? Sossegue sua bunda gorda na cadeira, e não vá atormentar mais ninguém com essa sua língua podre”. E ele perdeu o controle. Avançou para cima dela, e o noivo tentou segurá-lo. Kenneth lhe acertou um murro direto no nariz e o arrastou para a rua. E ela só conseguia chorar e amaldiçoa-lo. Amaldiçoava-o com seus lábios vermelhos.

Tentou empurrar a tampa estofada com as mãos, mas não tinha força suficiente. Sentiu ter desperdiçado dinheiro naquela droga de academia. Por um instante, achou ser como seu irmão, fraco, desimportante e sem dinheiro, e riu de si. Riu de novo, de escárnio e de pânico. Pânico crescente. Apertou os punhos com raiva e esmurrou a tampa. Outra e outra vez. Esmurrava a cara do irmão com força, arrancando cada vez mais sangue, espirrando-o na rua. A mulher de lábios vermelhos lamentava e dizia qualquer besteira, que não se lembrava de forma alguma. Mas desta vez, se lembrava de quem ela era. Lembrava-se do que fazia. E mesmo assim, continuava a socar o irmão e a lhe jorrar sangue. “Anêmico ridículo, fracote, reaja!”. “Largue ele! Saia de cima! Você vai mata-lo!!”. A multidão saía do bar e desacreditava. O rosto, único traço idêntico de ambos, agora estava desfigurado de sangue, outrora de raiva.

Morte.

Vida.

“Querido, está tudo bem?”, ela perguntou de novo. “Acho que está”, ele respondeu, ainda zonzo. Sei que vai soar estranho, mas… “Eu sou eu mesmo?”. E ela riu, um pouco menos assustada. Não devia ter bebido tanto. “Sim, está”. Ele sempre fora o mais forte por dentro. Ele sempre fora o mais rico de alma. Sempre fora o mais bonito de espírito. E suas enfermidades físicas eram tudo o que lhe atrapalhavam. O irmão, ao contrário, não sentia-se atrapalhado por seu físico, mas era oco, pobre e feio como pessoa. Cruel, matara o irmão na sarjeta de um bar, pelo monstro que achava ser vítima: inveja. Ciúme. Possessão. Deixara-o ali, sangrando, sem piedade, a mulher o acolhendo nos braços.  Ele se lembrava disso, mas ela não. A realidade, na verdade, não se havia alterado. Só se tornado justa. Morrera aquele que tinha sido morto, pelas mãos do próprio irmão. E então, o corpo tomou seu lugar no túmulo. O feio, pobre e enfermo estava morto.

 Foi naquele instante, quando lembrou que matara seu irmão, que se deu conta. “Você é maluco Kenneth!”. Será que estava perdendo a cabeça? Cabeça… O que achava ser suor, sabia ser sangue. O que achava ser dor, sabia ser fraqueza. O que achava ser caixa, sabia ser caixão. E o que achava ser corpo, sabia ser cadáver. Estava pútrido, mudo. Mas ainda tentava gritar, com a garganta estrangulada. Não havia ar, nem desconforto, nem dor de cabeça ou lembranças. Só crueldade sepultada. E breu.

Morte.

Vida.

Ele estava ali, vendo o túmulo do irmão, sem nome. Sabia que era ali. Lembrava-se de ser enterrado no escuro, na calada da noite, por um culpado manchado de sangue, sem piedade. Na surdina, como um pobre doente merecia. Mas ele não merecia. E ambos sabiam disso. Ali, naquele silêncio gritado, não precisavam trocar palavras. A última memória de suas vidas era o epitáfio sem lápide. Uma rosa vermelha solitária na terra remexida, ainda úmida. Lábios vermelhos. A noiva tomava o corpo ensanguentado do amado, que sem fôlego morria aos poucos. “Está tudo bem, querido”, ela repetia. E por fim, lhe selou um beijo com gosto de lágrimas, deixando a boca do cadáver marcada com seu batom vermelho.

“Está tudo bem, querido”, ela afirmava, enquanto lhe servia café da manhã com um sorriso no rosto. Os lábios rubros se aproximaram dos seus, lhe selando um beijo de bom dia, trazido com a manhã, com o sol e com as panquecas.

Morte.

Vida.

Pirâmide Invertida

Alô alô marcianos. Eis que venho hoje aqui compartilhar um pouco de cultura com vocês, só para variar.

Tópico da noite: Pirâmide Invertida, a técnica jornalística de fazer a notícia mais interessante. Como funciona?

Para entender esse conceito, primeiro é preciso especificar o que é Lead, ou lide. Do inglês “to lead” (liderar, conduzir), é o começo, a introdução que supre as perguntas básicas de uma notícia. Informa de forma rápida e resumida sobre o quê a notícia se trata, de forma a prender a atenção do leitor na matéria. As perguntas básicas que devem ser respondidas no lide são: Quem, O que, Quando, Por que, Onde, Como. Porém, para chamar a atenção do leitor, é possível usar da técnica da pirâmide invertida, que trata-se de explicitar as perguntas de forma a escrever do mais importante para o menos importante. Portanto, pode-se alterar a ordem dos fatos.

O professor de Jornalismo Básico deu-nos a seguinte missão: Criar um lide criativo e ao mesmo tempo interessante, usando da técnica de pirâmide invertida.

E eu, como bobona travessa que sou, não pude deixar de aproveitar o tema para fazer de uma ou duas graças. Mas ressalto logo, quem fizer a apuração da minha notícia, encontrará fatos verdadeiros. Eu apenas tornei as coisas um pouco mais… Criativas e interessantes, hehe. Divirtam-se.

 

As pirâmides invertidas: O fenômeno que está intrigando o mundo.

Nas terras do Cairo, no Egito, é onde se encontra a primeira grande maravilha do mundo: as Pirâmides de Gizé, que perduram através do tempo por mais de cinco mil anos, mantendo seu relativo bom estado. Porém, na noite de quarta-feira foram registradas queixas na polícia egípcia de Mênfis. No início foram levadas pelas autoridades como brincadeira, mas devido à grande massa de pessoas que continuavam ligando para a delegacia, causaram muita preocupação e espanto. Exploradores, cientistas e moradores locais declaravam ter visto as Pirâmides invertidas.
Numa equipe de reconhecimento, a polícia confirmou as queixas, encontrando as Pirâmides com as bases maiores apontadas para o céu, equilibradas pela ponta na areia. O evento absurdo foi reportado para a UNESCO por volta das 23h52min, conforme relatório oficial do delegado Hah-Amun. “Nunca vimos nada afetar as grandes pirâmides. Encontrá-las naquele estado me deixou perturbado. Até agora ainda não consegui dormir” Ele declarou em entrevista para a Reuters nesta manhã. Foram encontradas ferramentas de escavação ao redor das pirâmides, o que deixa o fato ainda mais estranho, uma vez que a polícia e os especialistas afirmam ser impossível inverter um monumento de tamanho porte e idade com instrumentos tão simples. Entre as ferramentas encontradas foram registrados três martelos, quatro pás, sete picaretas e uma enxada. Ainda no local foram encontradas placas de granito esculpidas por material desconhecido, todas com os dizeres: A situação pode ser invertida.
A busca por suspeitos de ter invertido as Pirâmides ainda não mostram nenhum resultado significativo, levantando inúmeras teorias entre os estudiosos do mundo todo, sendo intervenção alienígena a principal delas. “Isto é bobagem” disse o chefe do caso pelo FBI, George Russel, “O que aconteceu aqui só pode ter sido coisa de manifestantes. Não se preocupem, nós encontraremos o responsável por isto. Ninguém sairá impune” completou o oficial. O Egito tem passado por grandes reformas políticas desde os conflitos do começo do ano, entre o povo e o governo do ex-presidente Hosni Mubarak, deposto por acusações de corrupção e assassinatos. Tendo sido um ditador por 30 anos, Mubarak criou inúmeras tensões e organizações locais, e muitos manifestantes foram executados durante os protestos. Indo a julgamento no Cairo, e com a chance de ser condenado à pena de morte, o evento político é outra grande teoria explicativa do monumento ter sido invertido.
A situação ainda está sendo estudada a fundo, e todos os grandes órgãos de pesquisa e conservação do mundo estão envolvidos no mistério egípcio. “Seja lá o que tenha acontecido, nós nunca poderemos compreender completamente. Manifestantes, aliens, isto não importa muito. De qualquer forma, foi um grande sinal para todos nós” declarou o delegado Hah-Amun ao final de sua entrevista, enquanto olhava fixamente para as Pirâmides invertidas.

Clockwork City

Em aula de português, a missão era a seguinte: produzir uma crônica de tema livre, mas que mencionasse a cidade de São Paulo, de qualquer maneira possível. Cheguei cerca de uma hora atrasada em aula, tendo apenas 30 minutos pra concluir a missão. Considerei-a finalizada. Crônica dada, é crônida cumprida.

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O asfalto estala discretamente enquanto o som do salto alto ecoa na viela escura. A garoa fina, ácida, típica da cidade de São Paulo, escorre nos escassos rostos puídos da madrugada. Aos poucos, sempre aos poucos, as pessoas despertam. Como uma sinfonia arrastada, o sol vai expulsando a escuridão, entrando nas janelas empoeiradas, com o tempo marcado. As engrenagens do velho relógio de pulso da garota na viela parecem castigar a multidão que logo salta dos ônibus e plataformas. É um desfile de malas, maletas, marchas, manchas, tantas prioridades estampadas no rosto sonolento da multidão.
Sete horas da manhã e o café do executivo já está na mesa de seu escritório, junto com a papelada da próxima reunião. A esposa tinha ligado, dizia o bilhete rosa em seu monitor. Na rua o tempo voa, levanta a velha poeira, que, como dunas, acumula-se em corpos esquecidos na sarjeta. Cafeína vai, relatório vem, contrato assinado, ponteiro do relógio acelerado.
Meio dia, o sol decide espantar a garoa e observar os engravatados atordoados. A buzina da perua escolar leva e traz a alegria na casa da avó, da tia, do condomínio, naquela quadra para a qual a criançada marcou o futebol da tarde. Cheiro de bolo de fubá na rua, bolinho de chuva. E o incansável ponteiro continua implacável.
Cinco e meia, suspiram os funcionários da avenida. O expediente vai se encerrando, os chefes afrouxam o arrogante colarinho, a saia da secretária já está abarrotada. O céu cinza de São Paulo vai fechando suas nuvens, esperando para derramar a dose habitual de caos. A garota da viela estala os saltos outra vez, o batom impaciente. O diretor de vendas descola o bilhete da esposa e o amassa, a aliança fora do dedo, jogada no chão, assim como a secretária, nua como prata.
Nove horas da noite e o menino de joelho ralado espera, na janela, a avó na sala vendo a novela. A garota da viela olha o céu escuro, a garoa fina escorrendo pelos muros. O executivo entorna a aliança no dedo, hora de voltar para casa, limpando as marcas de batom de sua gravata. Passeia na viela, caminho cotidiano. É esfaqueado, o sangue vira chuva, os gritos são trovões, fora tudo calculado. A mulher deixa a faca junto ao corpo do marido traidor. A cidade a lavaria, morrera o seu amor.
Dez e meia. O salto estala na porta da frente da casa de esquina, cortina entreaberta na cozinha. O rapazinho beija a face da senhora, agradece pelo bolo e vai embora. “E o papai? Quando virá?”, pergunta para a mãe, que dirige em silêncio na chuva. “Creio que irá se atrasar para o jantar”. E o relógio continua a fazer a sua sina pela chuva em São Paulo, velho, apressado, abandonado em tantas vielas traiçoeiras, com seus corpos cotidianos na sarjeta.

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Não acho que foi meu melhor texto, mas pelo menos tirei nota máxima. De fato aos poucos me agrada. Aos poucos, sempre aos poucos. Hehe.

Perfil

O professor deu um exercício bem interessante semana passada, para entregar hoje. Acabo de finálizá-lo, e achei tão legal que vou postar por aqui. Deve ter ficado uma droga, mas eu até gostei, hehe. Era bem simples: Os alunos teriam de fazer uma entrevista consigo mesmo. Como se montassem um perfil, mas como uma outra pessoa. Era possível inventar sua personalidade… Por exemplo, você podia escolher se entrevistar como astro do rock, presidente da república, super vilão… etc. Devo dizer que no meu caso, a influência do Douglas Adams foi quase discreta… hehe. Segue o exercício.

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Perfil – Marina Rocha Ciavatta Corrêa.

É conhecido que entre nós humanos, sempre houve a dúvida sobre existir ou não vida fora de nosso planeta. Olhamos para o céu e muitas vezes nos questionamos se afinal estamos ou não sozinhos. Tememos que um dia formas de vida alienígena venham até nós, e que sua missão não seja de paz. Porém, eu devo dizer que algo extraordinário aconteceu hoje. Todas as nossas dúvidas foram de uma vez saciadas com esta presença que hoje me acompanha: Marina Rocha. Eis que estou diante de um extraterrestre, que veio até nós, e nos concedeu uma entrevista exclusivíssima. Com muita simpatia e uma aparência muito similar a nossa própria, Marina declarou querer responder qualquer questão que possa estar nos causando curiosidade.

Repórter: Marina, de que planeta você veio?

Marina: Puxa, isso é uma pergunta um tanto abrangente. Veja, eu nunca tive uma nacionalidade, como vocês dizem. Lá em cima é bem grande, fácil de perder-se. E é isso o que faço lá, me perco sempre que posso. Já nem sequer lembro-me de onde vim, e não faço ideia de para onde vou.

R: Uau, isso é muito interessante. O quão grande é o espaço? Quero dizer, de uma visão terráquea.

M: Este planeta, comparado ao Universo é algo tão pequeno, tão ínfimo, que podemos vê-lo como uma vírgula numa multiplicação de logaritmos por razões de números infinitos. No ditado de vocês, está bem longe de ser uma agulha no palheiro. Vocês estão mais para… Um ácaro num campo de futebol.

R: Quantos anos você tem, Marina?

M: Responder a este tipo de pergunta é algo engraçado. O que vocês consideram como tempo aqui é um sistema muito relativo. O que diferencia um dia ou outro de uma galáxia que tenha mais de dois sóis e uma lua? Outros sistemas ainda mais complexos. Não sei calcular o quanto já vivi por dias e noites. É algo que deve ser calculado pela experiência de cada.

R: Certo… Então, se tudo é tão relativo, Marina seria seu verdadeiro nome?

M: Ah, claro que não (risos). Só o adquiri por que vocês aqui da Terra parecem julgar a pessoa desde sua aparência até o seu nome. Se eu viesse até aqui me apresentando como Sqw4l0w-t3rMin4tor, acho que eu não seria nada aceita. E provavelmente, nem sequer estaríamos tendo esta conversa. Mas nomes também são coisinhas bem inúteis, se você for pensar. O que te dá a individualidade não é um rótulo, e sim seu próprio conteúdo.

R: E como é viver no espaço, com tantas possibilidades e liberdade?

M: É o mesmo que viver aqui na Terra, eu creio. Sem as naves tecnológicas, a presença de oxigênio, luz e numa velocidade muito mais absurda. Mas as possibilidades e liberdade nunca mudam de um lugar para outro. O que muda tudo isto são as imposições que vocês parecem precisar para viver em paz no mesmo planeta. Se um cientista do que vocês chamam de NASA não tivesse de lidar com tantas normas, regras, impostos, burocracias e permissões, vocês provavelmente estariam com três frotas de naves de titânio pousando no solo de Anúvia 7, há duas galáxias e três quartos de cinturão daqui.

R: Você parece bem experiente em viagens desse gênero. Tem alguma que queira compartilhar conosco?

M: Acho que esta em especial. Aqui é tudo muito… Curioso e diferente.

R: O que quer dizer?

M: Bem, em todos os planetas habitados que já visitei, existiam duas ou três regras para todos, e um conhecimento amplo de muitas coisas além-estratosfera. Aqui, vocês parecem fechados em uma caixa de laboratório, em que vocês mesmos montam os labirintos, fecham caminhos e criam normas malucas. Olhar para o céu é bem mais que olhar para um monte de pontinhos brilhantes, e querer saber o que há lá em cima exige muito mais que alguns robozinhos com rodas. Mas parece que estão ocupados demais para de fato olharem para o céu.

R: Então você já esteve em outros planetas habitados. E todos são como você?

M: Ninguém nunca é como eu. Assim como eu nunca sou como ninguém. A menos é claro, que eu atravesse a barreira espaço tempo em dimensões, para dar um oi a mim mesma em algum ponto do presente ou do futuro. Mas isso geralmente causa muita confusão. Enfim, o que estou tentando dizer é que não existe uma única forma animada ou inanimada nessa imensidão que eu já tenha visto igual. Assim como eu e você.

R: E qual é o veículo que você usa para se locomover no espaço?

M: A velha pergunta não é? Que carro você tem, que roupa você usa, onde você mora… Certo, deixe-me ver. É uma nave básica, mas reajustada. Implantei recentemente um sistema de circuito temporal mais discreto, por isso o casco teve de ser reforçado com Ionita. Não é nada demais.

R: Eu não diria isso, parecem ser peças incríveis e muito difíceis de conseguir, não são?

M: Na verdade, não. Tudo nessa vida é possível de se conseguir. Seja uma promoção, achar uma moeda no asfalto, ou instalar um circuito temporal eficiente. Mas eu deveria saber que esta seria a reação quando eu falasse sobre minha nave.

R: E porquê?

M: Por que mesmo quando vocês humanos não fazem ideia do que se trata, se os rótulos forem complicados, vocês atribuem grande significância para a coisa.

R: Você está em alguma missão na Terra?

M: Na verdade, não sei dizer. Todos estão em algum tipo de missão. Até mesmo aqueles sem esperanças têm como missão o suicídio ou algo assim. Nenhum ser é inerte. Eu só estou de passagem, não pretendo ficar para qualquer tipo de experimento. Eu apenas estava admirando a paisagem, aproveitando do resto de beleza que este planeta ainda pode oferecer de natural.

R: E o que te levou a vir aqui dar uma entrevista?

M: Tédio. Veja bem, terráqueo, eu não sou um ser nobre que pretende salvar a vida de vocês ou destruí-los por algum motivo conspiratório, nem coisa parecida. Nenhum ser na verdade é tão nobre assim. Todos apenas vivem suas próprias missões, e isso as vezes impressiona um ou outro. Assim como pode parecer impressionante para você que eu dê uma entrevista.

R: Entendo. E tem algo que você queira deixar como mensagem para o nosso planeta?

M: Ah, bem, nada que já não saibam.

R: Como assim?

M: Vocês sabem que vão destruir a natureza. Sabem que vão acabar matando sua própria espécie. Sabem que essa busca maluca por dinheiro e poder é besteira. Sabem que tantas regras acabam enlouquecendo vocês. Sabem de tudo o que pode ser vital para a sobrevivência de vocês. O que não sabem, e que eu pudesse talvez falar, de nada vai adiantar.

R: E por quê não adiantaria?

M: Por que amanhã, estará em manchete, a Casa Branca vai desmentir a todos para não causar pânico, muitos estudiosos debaterão isso por anos e anos, alguns entrarão em paranoia. Talvez vocês até criem alguma religião sem sentido sobre isso. Mas a verdade é que nada vai mudar, e vocês vão continuar no mesmo passo.

R: Quando partir da Terra, o que fará?

M: Vou procurar algum lugar frio. Isto aqui está cada vez mais quente. Talvez eu vá jantar no Restaurante do Fim do Universo, ou jogar alguma coisa nos anéis de Lulapalik, há setenta e nove anos luz por hectare ao quadrado daqui. Vou continuar vivendo em função de minha própria missão. Seja ela de paz ou não.

Repórter: Então desde já eu lhe agradeço pela entrevista, Marina. E tenha uma boa viagem de volta.

Marina: Eu até teria. Uma pena que o seu governo confiscou minha nave e anda causando muitos problemas no casco dela, com essas tais bombas atômicas. Eu não queria causar tanto rebuliço por ser diferente. Mas quando essas coisas acontecem, o que tem de se fazer é sacar o laser subeta-atômico e apontar para a cabeça do líder de vocês com a ameaça de disparar uma guerra mundial. Bem, tenho de ir, tenho uma nave a recuperar e o resto do universo para explorar. Passar bem.

Evolução

Redação meio instantânea, escrevendo pra me distrair no meio da aula. Professora pediu para que eu passasse a limpo e mandasse a ela. Pois bem, sendo feito.

Na passagem da vida, soprava o leviano vento. Vinha do Norte, juntava-se ao Sul, encontrando-se a leste, vasculhando o oeste. O Vento, curioso, revolto, abusado, levava histórias, entregava lágrimas, esticava-se no som, girava os moinhos, acariciava os pastos, chicoteava as casas, afugentava pragas, propagava o mundo de cinzas e pureza.

Ventava uma vez, numa remota fenda em grutas esquecidas, onde descobriu o Tempo. Não o conhecia, não o sentia, não lhe dava importância. Era um velho disforme, de olhar jovial e espírito confuso. Seus gestos, además de sua idade, eram planejados e inteligentes. Não acreditava no acaso, mas não largava mão da amizade do Destino. “És tão envolvente”, dizia-lhe o velho”.

O desprendido vento, tão veloz e inconsequente, entristeceu-se de repente.

“Que afliges o espírito” perguntava o velho sábio.

“Não lamentas? Estás velho, és enclausurado. Vê-se nos olhos tua vontade de vida, teu tempo infindado. Quê te adianta? Não tocas as maravilhas, não sentes os calores, não presencias os humanos, animais ou natureza…”

No profundo olhar, o Tempo pronuncia-se. “Achas que por quê o Vento não me sentes, que não existo? Mas sou o Deus do mundo e o pai da evolução. Sou o grande criador, inventor, procriador e amante. Desenvolvo a vida, e então, a tomo para outros. Os humanos sentem-me no corpo, na mente, no esírito e coração. Eu sou o Universo, e ele todo és quem sou”. O Vento não acreditava, leviano como era, que aquela deplorável criatura numa fenda fosse tão absoluta.  “Abaixo da Terra, ou mesmo a seu redor, sou, fui e serei ainda mais essencial que ti”, concluiu o velho.

“Sem mim, a vida se vai, ainda assim” o Vento inflou-se de importância.

“Antes de ti, criei a vida e sem ti, dei-lhe os primórdios. És um caprinho da Natureza nova deste planeta, onde não existe além daqui”.

Sentindo-se enfim submetido, reconheceu o Tempo como Senhor da existência. Mas havia algo. “Se és tão soberano, que fazes isolado nesta fenda, enquanto sou livre e viajo pelos continentes?”.

“Escondo-me. Os humanos, meu maior trunfo, enfadonham-se de mim e matam-se em campos áridos, ainda jovens. Os que perduram a mim, cultivam novas formas de matar-me. Querem imortalidade, saltam dos limites. E se não guerreiam, vivem em vão, gastando-me atrás de luxúria, falsos propósitos e hipocrisisas, até debilitarem-se e suplicarem a mim permissão para mais. Tenho vergonha… Por isso, torno-me fenda”.

Perplexo, o Vento deixa a gruta numa baixa brisa confusa, e entende a primeira vez a Sabedoria. Toca a Natureza e escuta-a ferida. Sopra em desertos que um dia foram mares e escuta pelo globo explosões nucleares. Engasga-se numa nuvem escurecida de dióxido poluente e agentes corrosivos de si. Ao sentir-se tão doente, baixa-se de altura e diminui-se. Sente então o rosto de cansados seres vestidos em terno novo. Ignoram sua presença, desrespeitam-na! Sopra pelos olhos molhados de uma moça surrada, levando-lhes as lágrimas e a dor aos poucos. Por fim, entrou desnorteado numa fenda de concreto, um beco, e ali leva o ruído da arma certeira de um imundo ao peito de outro igual.

A agonia, a indiferença, a ousadia, o cansaço, a dor e o sangue deixam-no pesado e mais pesado. A corrente do Vento encontra-se sufocada. É preciso expandir… É preciso acabar com o sofrimento! É preciso acelerar e ir. É preciso destruir. O Vento atordoado, já não mais leviano, carregado, torna-se furacão, derruba casas e edifícios, furioso tufão. Livra de si e espalha por aí toda a maldade que antes coletara. Outra vez leve, acalma-se e passa. Deixa para trás escombros e choros.

O problema fora-se e tornara-se consequência. A ganância e dor tornaram-se ruína. Sobra poucos desafortunados para tomarem a cena como lição. Mal sabia o ingênuo vento que o humano endurece o coração. O Tempo, velho envergonhado, torna-se inimigo e aliado.

Maiores prédios surgem, novas armas criam-se e até o fim, o tornado de angústia gira, cada vez mais embalado de veneno, reflexo da sociedade, arrasando cidades. Até que nada mais sobre. Nem humanos, nem Sabedoria, nem Destino, nem Natureza, nem vento. Só tempo…

Infindo, velho e enclausurado.

Marina Rocha

Um passo à frente.

Essa tirada é o resultado de ter feito 3 provas estressantes no mesmo dia, sair tarde do curso e ainda ser ignorada pelo ônibus, que quase subiu na calçada e matou o povo. Isso inclui a mim. Depois de ter que voltar andando, entendi o que já me disseram… que a raiva é uma boa inspiração… Ou não. Enfim…

Estava morta e nasci.

Aproximei-me do meio fio e parei ali.

Quis pegar o ônibus, mas não tinha lugar.

Quis pegar um táxi, mas não tinha onde achar.

Quis dirigir, mas não podia pilotar.

Quis aventura, mas não tinha mais coragem.

Quis inovar, mas já não tinha o que criar.

Quis surpreender, mas não saí do meu lugar.

Quis ir embora, mas não tinha onde ir.

Quis diversão, mas não tinha como sorrir.

Quis pensamento, mas não tinha mais idéias.

Quis falar, mas não tinha mais palavras.

Quis amar, mas não tinha mais coração.

Quis participar, mas estava na contra-mão.

Quis dançar, mas não tinha mais ritmo.

Quis resistir, mas não tinha mais razão.

Quis musicar, mas não tinha mais melodia.

Quis gritar, mas não tinha mais voz.

Quis rejeitar, mas não tinha mais o que negar.

Quis desistir, mas não tinha o que largar.

Quis correr, mas não tinha mais forças.

Quis subir, mas não havia mais andar.

Quis cair, mas não havia quem pudesse me segurar.

Quis ir embora, não tinha como ficar.

Quis estar ali, mas eu não era existência.

Quis me calar, mas nem havia dito.

Quis chorar, mas não haviam lágrimas.

Quis desespero, mas não tinha emoção.

Quis emoção, mas só achei solidão.

Quis compania, mas estavam todos apressados.

Quis lentidão, mas tudo só girava ainda mais.

Quis rebeldia, mas não havia nada para deixar.

Quis saciar-me, mas não havia mais comida.

Quis hidratar-me, mas não tinha mais água.

Quis respirar, mas não tinha mais ar.

Quis me encontrar, mas não tinha mais chão.

Quis fumar, mas não tinha mais pulmão.

Quis me embebedar, mas não tinha mais motivo.

Quis rezar, mas não tinha mais fé.

Quis ter esperança, mas não tinha mais desejo.

Quis olhar para cima, mas não tive qualquer resposta.

Quis salvar-me, mas encontrei-me na fossa…

Por qualquer motivo ou força, dei um passo à frente. Decidi ir um pouco adiante. Pisei fundo…

Quis escutar, mas o barulho foi muito alto.

Quis olhar, mas já não tinha mais ninguém ali.

Quis desviar, mas não fui mais rápido.

Quis ficar deitada, mas a força me puxava.

Quis ver as estrelas mais uma vez, mas era tudo escuridão.

Quis então viver… Mas ali já não existia vida.

Quis a morte, mas tive de nascer.

 

Autoria Própria.

Nem sempre um passo à frente lhe fará seguir adiante. Nem sempre te trará novas forças. Nem sempre dar mais um passo sem rumo te dará mais minutos de vida.

Escutando The Killers – The World We Live In , e , Smile Like You Mean It.