A Queda da Casa de Música

Mais uma vez, em exercício para faculdade, foi pedido pelo professor um texto descritivo. Podíamos dissertar sobre qualquer coisa, desde que a descrição do ambiente, do personagem ou da situação fosse o foco. Foi pedido um pouco de narração. Afinal, descrição sem narrador é apenas parnasianismo, não é? hehe. Mas deixando os chatos de lado, vamos ao exercício, que é o que nos interessa. Creio que tive liberdade suficiente pra fazer o tipo de texto que de fato me agrada. Ei-lo aqui:

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A QUEDA DA CASA DE MÚSICA

Era cedo demais para o meu gosto. Daquele tipo de cedo em que o sol ainda está ameaçando aparecer entre as nuvens, depois de uma madrugada mal dormida. Aquele cedo cinco e dez da manhã. As pessoas na rua, afortunadas – pensei comigo – ainda estavam pensando em seu café, e eu já tinha um assassinato nas mãos. A casa era muito velha, rangia só de olhar. Casa de esquina, tradicional, de família antiga na cidade. Os Penber, donos da casa por gerações, haviam sido grandes em tudo. Sapataria, alvenaria, destilaria, mas o último empreendimento antes de tudo dar errado fora uma loja de música. O primogênito Charles Penber era o tipo de excêntrico que cabia na ficha criminal. Me esperava na saleta úmida e escura, logo depois da varanda, casa adentro. Segurava um violão gasto, e dedilhava lamentavelmente uns acordes opacos, tremidos e tristes. Sentei-me num banco abandonado à sua frente. Eu parecia ser o primeiro policial a chegar à cena, pois as marcas do meu sapato na poeira estavam solitárias. Charles, que não havia levantado a cabeça para me olhar de frente, fedia a pólvora.

Olhei para os fundos da casa. A vítima resistiu à Charles, derrubando os móveis espalhafatosamente pelo chão. Os vizinhos tinham alertado sobre o barulho todo, que era descomunal para os irmãos Penber. Algumas gotas de sangue no colarinho e no tórax do violonista, marcas de quem arrastou um corpo ferido. Finalmente ergueu a cabeça. Seus olhos azuis de um tom noturno estavam cansados, denunciando suas noites de insônia e medicamentos. Seu rosto estava abatido, quase esquelético, havia tempos que não tinha uma refeição decente. A pobreza tinha alcançado seu corpo de pedra, grande e imponente, mas curvado pelo tempo, castigado. Os dedos, longos e finos, estavam desgastados pelas cordas de aço do instrumento, prova de que tocava com constância. Suas roupas pareciam ter sido casa de traças e pequenos roedores, esburacadas.

Riu para mim, um sorriso sincero, com todos os dentes amarelados de Marlboro. Ergueu a mão para me cumprimentar, de forma vaga e trêmula. As mãos ainda estavam quentes, a cintura carregava um revólver. Levei discretamente minha outra mão para dentro de meu casaco, e Charles riu de viés, a voz gutural e rouca de gritar. – Não se preocupe, oficial. O meu serviço já foi cumprido. – Ele declarou. Podia prendê-lo ali, o corpo da irmã jogado na banheira do cômodo de cima, o sangue dela em sua roupa, a arma do crime com suas digitais, só não eram evidências mais gritantes que sua confissão, e eu estava curioso. – O que te levou a isso, Charles? – E ele voltou a tocar, desviando o olhar de mim, carregado do mais venenoso orgulho. – É bem simples. Ela nos levou à ruina. Matou minha família. Que fosse junto pro túmulo, é como o mundo demonstra justiça.

Ofeguei, o ar comprimindo meus pulmões. Eu o tinha pego com a mão na massa, ou na viola. Lhe expliquei que teria de leva-lo dali, e ele seria preso pelo que tinha feito e ele riu uma nova vez. Percebi um tom de ironia quando falou que eu é que não entendia a situação. – A casa dos Penber caiu, meu amigo. Essa é minha última música, e foi feita exatamente para este momento. Não acha bonita? – E com alguns delírios, efeito dos medicamentos, ele continuou tocando e cantarolando baixo. Só então percebi que tocava I Started A Joke, dos Bee Gees. Suspirei impaciente, e ele voltou a olhar para mim. Quando me perguntou se eu conhecia a música, respondi que sim, e ele pareceu ficar satisfeito. O barulho dos carros de polícia se aproximando me chamou a atenção para a porta, e tudo o que vi depois foi um borrão. Em um acorde terrível, Charles acertou-me com o violão na costela, no momento seguinte em que eu saquei a arma. Suas mãos descuidadas puxaram seu revólver da cintura, e ele riu uma última vez, porém, com uma tristeza tão profunda quanto o crime que cometera. – Que seja saudosa a queda da minha casa, e que seja lembrada pelos acordes de pólvora, sonora vingança. – E meteu-se um tiro na goela para cima, o tampo da cabeça sangrando, enquanto o corpo monumental espatifava-se no chão. Tudo tão dramático e exagerado, pensei enquanto era socorrido. O exagero, como se sabe, é a matéria prima da piada. Mas esta já perdera a graça.

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Morte. Vida.

Acordou aos poucos, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. Tudo estava tão escuro quanto breu. Lá fora já era quase manhã, mas ele não sabia. Na verdade, sabia de pouca coisa, mas de uma tinha certeza: De que sua cabeça doía. Que acontecera noite passada? Não se lembrava de muita coisa, apenas dos primeiros copos de vodka, luzes, conversa, um assobio alto e pronto. Breu. Foi então que, pela primeira vez, sentiu desconforto. Tentou tatear no escuro, se dando conta que também não sabia onde estava. Sentiu um pouco de terra entre os dedos. Sentiu um estofamento puído embaixo de si e ao seu redor, como se estivesse em uma caixa. Uma caixa pequena e desconfortável. Tentou respirar fundo, e outra nova sensação começou a lhe gerar um pouco de pânico… O ar estava pesado, daquele tipo difícil de se respirar, do tipo claustrofóbico e cheio de culpa. Suava muito, pois sentia o rosto muito molhado. Tentou se mexer, sem sucesso algum. A caixa era estreita e não conseguia sequer dobrar muito os joelhos, que logo batiam na parte de cima, produzindo um som opaco. A pontada de pânico puxou um nervo de sua nuca, parecendo marretar a dor de cabeça. E então, um flash. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth!”. Conversa, risada, um bar. Estava sentado na mesa, observando uma garota. Ela não tinha nenhum grande atrativo, na verdade, mas o batom vermelho que usava despertava a atenção dele. Ficava de canto, bebia discretamente, isolada do ambiente. Lábios vermelhos. Estofado. Estava na caixa outra vez, com dor de cabeça. Aquela era a maldita hora em que pedaços de memória começam a brincar com o inconsciente, ele sabia bem. “Onde diabos estou?” Ele falou baixo, escutando sua voz abafada e rouca. A garganta ardeu como se tivesse engolido vidro. Tentou forçar a parte superior do estofado, que não estava muito acima de seu nariz. Nada, nem sequer um movimento. Tentou escutar algum barulho externo. Nada, nem sequer um lamento. Suspirou. Onde diabos estava?

“Kenneth? Está me ouvindo?” Disse uma voz masculina. “Cale a boca, que estou te ouvindo em excesso” ele respondeu. Na mesa do bar, seu amigo lhe contorcia o rosto e xingava qualquer coisa contra ele, e depois ria, mas ele só focava em uma única coisa: Lábios vermelhos. Ela ainda estava lá, sozinha. Fumava, agora, e ele virou o octogésimo copo pra dentro da garganta, que pegou fogo o suficiente pra fazê-lo se contorcer um pouco. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth! Vai acabar vomitando até o que comeu semana passada!”. Mandou o amigo calar a boca e se levantou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido?” Que mais podia fazer, idiota? Iria falar com ela. Sabia que ela também queria. Ah, sim, ela queria sim. Pânico. Dentro da caixa, tentou dobrar os joelhos outra vez, batendo no teto. Repetiu o ato teimosamente por mais duas vezes, com mais força. Não cedia um milímetro sequer. Onde diabos estava? Tentou tatear os bolsos da calça, a coisa mais perto do alcance de suas mãos. Moedas, papel e desesperança. Era tudo o que carregava consigo naquele instante. Lixo, pensou ele. Que é que adianta essas moedas? Pra que merda vou gastá-las, se não consigo sair dessa maldita caixa? “Ora Kenneth, sossegue a bunda gorda na cadeira, não vá atormentar ninguém com essa sua língua podre”. Mas ele não deu a mínima. Estava bêbado o suficiente para falar com qualquer boazuda, e aquela ali não era nada demais. Álcool demais e garota de menos. A calça dela era apertada, a blusa pouco decotada, não mostrando nada que valesse tanto a pena assim. Mas os lábios vermelhos, aqueles lábios sim. Eram eles que o queriam. A garota olhou de viés e continuou a fumar seu cigarro. “Estou falando com você, gracinha. Como se não quisesse atenção com esse jeans apertado, hum?” Ele se ouviu dizer, como um bêbado fedido, se apoiando no bar. A voz dela saía, mas ele não se lembrava dela. Só dos lábios vermelhos, se movendo. Não gostou, seja lá o que ela tenha dito. Quem achava que era? “Está na hora de descer do seu castelo, princesa. Pare de mexer essa boca, e gaste esse batom com coisa melhor”, e ele avançou em cima da garota. Sentiu a mão de seu amigo segurando-o pelos ombros, e o encarou com raiva. “Está maluco, cara?” Tire as mãos de mim, seu bosta! E a cólera o tomou de instantâneo, levantando o punho fechado no ar, mirando exatamente no nariz do rapaz. Antes que percebesse, sentiu um baque forte na cabeça, cambaleou pelo salão e se espatifou no chão. As coisas foram ficando embaçadas.

Seu fôlego pesado o fez arregalar os olhos, mas de nada adiantava. A caixa era tão escura e sua escuridão impenetrável não aceitava sua curiosidade. Tentou outra vez bater o joelho na tampa, com tanta força que sua perna começou a doer. Outra e outra vez, até que sua cabeça começasse a reclamar de dor. Mais dor. “Tem alguém aí?!” ele gritou, e se calou em seguida, arrependido. Sua garganta tinha sido arranhada por gatos raivosos, com certeza.

Morte.

Vida.

Acordou, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. A luz que o atingiu foi tão forte que ficou cego por alguns instantes. E então, viu um teto branco, a luminária pendurada, acesa. Aquele era seu quarto, ou não? Não tinha muita certeza. Mas sabia de uma coisa: Estava com dor de cabeça. A bebedeira do dia anterior o abatia como britadeira. Os músculos do corpo estavam doloridos, e levantar-se da cama foi difícil. E então percebeu: Que é que tinha acontecido com suas pernas? Não eram suas. Estavam mais musculosas, um tanto mais bronzeadas. Olhou seus braços: Estavam mais grossos, maiores. Examinou o abdômen, mais torneado e definido. Foi até o espelho e quase perdeu o coração pela boca. Não era ele que se via no espelho! O cabelo moreno bem penteado, o maxilar quadrado, os olhos azuis arregalados de espanto. Mas… aquele não era… Mas… o que é que tinha… Como é que…? E antes que se desse conta, ficou zonzo demais, caindo com força no chão.

“Onde diabos eu estou?” ele se perguntou outra vez, tateando no escuro da caixa. Respirar o ar pesado e abafado começava a doer, como se tivesse levado um murro direto no nariz. Deu uma nova joelhada no teto, e a dor desta vez foi tanta que teve que desistir da empreitada. Aquilo não era típico dele, pensou. Anos de academia tinham deixado suas pernas resistentes, mas por algum motivo, elas doíam com o menor dos movimentos. Sentiu-se doente. Afora a dor de cabeça, sentia o corpo atrofiado. Sentia certa fraqueza, e muita falta de ar. Seus lábios estavam muito secos. Lábios vermelhos. Caído no chão do bar, estava com medo. “Medo? Que é que sou? Um rato?” Levantou-se e xingou a todos os pulmões, com seu hálito fétido. Arrastou o rapaz pelos cabelos escuros e maltrapilhos. Um pobre qualquer, que não suportava mais. Vivia o chamando de amigo, recusando que pagasse as bebidas, como se fosse um bom homem. Nenhum bom homem andava com ele, sabia bem. Todos o invejavam. Invejavam seus músculos, seus olhos azuis, seu carro e seu dinheiro. Jogou-o na sarjeta e prendeu-o embaixo de seu próprio corpo. “Você é um maluco Kenneth! Saia de cima de mim!” Gritou seu irmão. Sim, agora estava se lembrando. Levara seu irmão para comemorar o noivado. Levaram a noiva também? Seu irmão, semelhante a ele. Cabelos escuros, olhos azuis, exceto o corpo mirrado e a saúde debilitada. Nasceram do mesmo útero, mas Kenneth nasceu mais saudável. Roubava o alimento do irmão. Desde crianças, ele era um empecilho. Sempre doente, sempre carente, sempre o centro da atenção de seus pais. E quanto a ele, o saudável? O bonito? Superior? Pouco se falavam desde a adolescência. E então, recebeu a ligação dos pais, anunciando o noivado de seu irmão, cheios de orgulho. Pro inferno com o casamento e com essa besteira toda, ele pensou, mas não disse nada. Concordou acolher os noivos enquanto estivessem na cidade. Não entendia como seu irmão contentava-se com aquela mulher. Não tinha nada de especial. Pouco decote, nada pra mostrar. Só um par de lábios vermelhos.

“Querido? Está tudo bem?”, ela o apoiou pelas costas, preocupada. Aos poucos, sua cabeça deixava de doer, e ia se lembrando do que acontecera na noite anterior. Estavam brindando. Seu irmão, Kenneth, bebera mais do que o esperado. Sua noiva fumava no canto perto da janela, pois não era permitido fumar nas mesas. Pedira a ela na noite anterior para dar privacidade aos dois. Ele queria dar mais atenção ao irmão, que não via há tempos. Mas Kenneth insistia em lhe rebaixar. Estava acostumado, entendia que era como o irmão lhe mostrava preocupação. Mas as bebidas estavam demais, e ele começou a se portar extremamente mal. Ela escutava tudo de longe, cada vez mais irritada com a má educação do anfitrião. Mas prometera ao noivo deixa-los se entenderem. E foi quando Kenneth veio lhe faltar com o respeito que ela praguejou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido? Não cansou de maltratar seu irmão que veio até aqui te ver? Sossegue sua bunda gorda na cadeira, e não vá atormentar mais ninguém com essa sua língua podre”. E ele perdeu o controle. Avançou para cima dela, e o noivo tentou segurá-lo. Kenneth lhe acertou um murro direto no nariz e o arrastou para a rua. E ela só conseguia chorar e amaldiçoa-lo. Amaldiçoava-o com seus lábios vermelhos.

Tentou empurrar a tampa estofada com as mãos, mas não tinha força suficiente. Sentiu ter desperdiçado dinheiro naquela droga de academia. Por um instante, achou ser como seu irmão, fraco, desimportante e sem dinheiro, e riu de si. Riu de novo, de escárnio e de pânico. Pânico crescente. Apertou os punhos com raiva e esmurrou a tampa. Outra e outra vez. Esmurrava a cara do irmão com força, arrancando cada vez mais sangue, espirrando-o na rua. A mulher de lábios vermelhos lamentava e dizia qualquer besteira, que não se lembrava de forma alguma. Mas desta vez, se lembrava de quem ela era. Lembrava-se do que fazia. E mesmo assim, continuava a socar o irmão e a lhe jorrar sangue. “Anêmico ridículo, fracote, reaja!”. “Largue ele! Saia de cima! Você vai mata-lo!!”. A multidão saía do bar e desacreditava. O rosto, único traço idêntico de ambos, agora estava desfigurado de sangue, outrora de raiva.

Morte.

Vida.

“Querido, está tudo bem?”, ela perguntou de novo. “Acho que está”, ele respondeu, ainda zonzo. Sei que vai soar estranho, mas… “Eu sou eu mesmo?”. E ela riu, um pouco menos assustada. Não devia ter bebido tanto. “Sim, está”. Ele sempre fora o mais forte por dentro. Ele sempre fora o mais rico de alma. Sempre fora o mais bonito de espírito. E suas enfermidades físicas eram tudo o que lhe atrapalhavam. O irmão, ao contrário, não sentia-se atrapalhado por seu físico, mas era oco, pobre e feio como pessoa. Cruel, matara o irmão na sarjeta de um bar, pelo monstro que achava ser vítima: inveja. Ciúme. Possessão. Deixara-o ali, sangrando, sem piedade, a mulher o acolhendo nos braços.  Ele se lembrava disso, mas ela não. A realidade, na verdade, não se havia alterado. Só se tornado justa. Morrera aquele que tinha sido morto, pelas mãos do próprio irmão. E então, o corpo tomou seu lugar no túmulo. O feio, pobre e enfermo estava morto.

 Foi naquele instante, quando lembrou que matara seu irmão, que se deu conta. “Você é maluco Kenneth!”. Será que estava perdendo a cabeça? Cabeça… O que achava ser suor, sabia ser sangue. O que achava ser dor, sabia ser fraqueza. O que achava ser caixa, sabia ser caixão. E o que achava ser corpo, sabia ser cadáver. Estava pútrido, mudo. Mas ainda tentava gritar, com a garganta estrangulada. Não havia ar, nem desconforto, nem dor de cabeça ou lembranças. Só crueldade sepultada. E breu.

Morte.

Vida.

Ele estava ali, vendo o túmulo do irmão, sem nome. Sabia que era ali. Lembrava-se de ser enterrado no escuro, na calada da noite, por um culpado manchado de sangue, sem piedade. Na surdina, como um pobre doente merecia. Mas ele não merecia. E ambos sabiam disso. Ali, naquele silêncio gritado, não precisavam trocar palavras. A última memória de suas vidas era o epitáfio sem lápide. Uma rosa vermelha solitária na terra remexida, ainda úmida. Lábios vermelhos. A noiva tomava o corpo ensanguentado do amado, que sem fôlego morria aos poucos. “Está tudo bem, querido”, ela repetia. E por fim, lhe selou um beijo com gosto de lágrimas, deixando a boca do cadáver marcada com seu batom vermelho.

“Está tudo bem, querido”, ela afirmava, enquanto lhe servia café da manhã com um sorriso no rosto. Os lábios rubros se aproximaram dos seus, lhe selando um beijo de bom dia, trazido com a manhã, com o sol e com as panquecas.

Morte.

Vida.

Clockwork City

Em aula de português, a missão era a seguinte: produzir uma crônica de tema livre, mas que mencionasse a cidade de São Paulo, de qualquer maneira possível. Cheguei cerca de uma hora atrasada em aula, tendo apenas 30 minutos pra concluir a missão. Considerei-a finalizada. Crônica dada, é crônida cumprida.

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O asfalto estala discretamente enquanto o som do salto alto ecoa na viela escura. A garoa fina, ácida, típica da cidade de São Paulo, escorre nos escassos rostos puídos da madrugada. Aos poucos, sempre aos poucos, as pessoas despertam. Como uma sinfonia arrastada, o sol vai expulsando a escuridão, entrando nas janelas empoeiradas, com o tempo marcado. As engrenagens do velho relógio de pulso da garota na viela parecem castigar a multidão que logo salta dos ônibus e plataformas. É um desfile de malas, maletas, marchas, manchas, tantas prioridades estampadas no rosto sonolento da multidão.
Sete horas da manhã e o café do executivo já está na mesa de seu escritório, junto com a papelada da próxima reunião. A esposa tinha ligado, dizia o bilhete rosa em seu monitor. Na rua o tempo voa, levanta a velha poeira, que, como dunas, acumula-se em corpos esquecidos na sarjeta. Cafeína vai, relatório vem, contrato assinado, ponteiro do relógio acelerado.
Meio dia, o sol decide espantar a garoa e observar os engravatados atordoados. A buzina da perua escolar leva e traz a alegria na casa da avó, da tia, do condomínio, naquela quadra para a qual a criançada marcou o futebol da tarde. Cheiro de bolo de fubá na rua, bolinho de chuva. E o incansável ponteiro continua implacável.
Cinco e meia, suspiram os funcionários da avenida. O expediente vai se encerrando, os chefes afrouxam o arrogante colarinho, a saia da secretária já está abarrotada. O céu cinza de São Paulo vai fechando suas nuvens, esperando para derramar a dose habitual de caos. A garota da viela estala os saltos outra vez, o batom impaciente. O diretor de vendas descola o bilhete da esposa e o amassa, a aliança fora do dedo, jogada no chão, assim como a secretária, nua como prata.
Nove horas da noite e o menino de joelho ralado espera, na janela, a avó na sala vendo a novela. A garota da viela olha o céu escuro, a garoa fina escorrendo pelos muros. O executivo entorna a aliança no dedo, hora de voltar para casa, limpando as marcas de batom de sua gravata. Passeia na viela, caminho cotidiano. É esfaqueado, o sangue vira chuva, os gritos são trovões, fora tudo calculado. A mulher deixa a faca junto ao corpo do marido traidor. A cidade a lavaria, morrera o seu amor.
Dez e meia. O salto estala na porta da frente da casa de esquina, cortina entreaberta na cozinha. O rapazinho beija a face da senhora, agradece pelo bolo e vai embora. “E o papai? Quando virá?”, pergunta para a mãe, que dirige em silêncio na chuva. “Creio que irá se atrasar para o jantar”. E o relógio continua a fazer a sua sina pela chuva em São Paulo, velho, apressado, abandonado em tantas vielas traiçoeiras, com seus corpos cotidianos na sarjeta.

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Não acho que foi meu melhor texto, mas pelo menos tirei nota máxima. De fato aos poucos me agrada. Aos poucos, sempre aos poucos. Hehe.

Eduardo e Mônica

Entre o frio e o quente, o preto e o branco, o gótico e o hippie, o sim e o não, a razão e o sentimento, o amor e o ódio, as diferenças andam juntas em pé de igualdade  e moldam tudo que de mais belo e sólido existe nesse mundo. Como o Ying e o Yang se completam, foram dos opostos os conjuntos perfeitos, vemos nas nossas vidas os contrastes funcionarem de maneiras explêndidas. O sol tocando a neve numa manhã de inverno, a chuva no fim de um dia quente de verão, o resultado das tintas se tocando na tela, o encontro do cume de uma montanha com as nuvens do céu… O olhar de um casal numa praia vazia, num dia nublado. Lados contrários de uma mesma moeda que se refletem. Pólos contrários dos ímas que na verdade, se atraem com uma força inimaginável. Tudo para dar certo numa equação improvável e que, exatamente por isso, acaba se resolvendo com uma perfeição impensada. Duas mãos juntas, um abraço, a uníão dos lábios. O feminino e o masculino se contrapondo no nascer do sol em uma cidade cinzenta, mas que esconde amor de vez em quando, nas casas fechadas e distantes de casais que se encontraram nas diferenças e se completaram. Não mais deixarão de se amar. O Ying e o Yang nunca se desatam. A harmonia de estarem conectados traz o “para sempre” dos contos de fadas para uma realidade pouco fantástica. Mas nem por isso, menos perfeita.

PERFEITO COMO DEVE SER.

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram

Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Um carinha do cursinho do Eduardo que disse
“Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”

Festa estranha, com gente esquisita
“Eu não tô legal”, não agüento mais birita”
E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
“É quase duas, eu vou me ferrar”

Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard

Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de “camelo”
O Eduardo achou estranho, e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo

Eduardo e Mônica eram nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês

Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô

Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema
Escola, cinema, clube, televisão

E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser

Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato, e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar

Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar (não!)
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular

E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela
E vice-versa, que nem feijão com arroz

Construíram uma casa há uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana, seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram

Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias, não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

The White Running Bunny

Tempo é bobagem. Tempo é essencial. Tempo é dinheiro. Tempo é preciosidade. Tempo é corrido, arrastado. É velho, é novo, é longo, é nobre. Se vai, nos deixa, engana, desapercebe.

Tempo é só um número que se conta nos dedos.

Você tem o tempo em suas mãos.

Não é tarde, não é cedo. É questão sempre de um ponto de vista diferente.

Este é o nosso tempo. Os ponteiros são nossos passos. Pensamentos, sentimentos.

Movemos o tempo com nosso ser.

E transformamos o casulo em borboleta, seja em anos, dias, ou segundos.

Tempo passa. O que não passa nunca é a gente.

É a alma.

Nada que o tempo não cure.

To Find Me I Have To Lose Myself.

O cursor pisca de várias formas. As vezes pra distrair o cérebro com uma contagem sincronizada do que você não tem nada pra dizer… As vezes, é um inquisitor, uma cobrança do monitor em branco pra sua falta de pensamento e receio da escrita. Enfim, nada que importe. É preciso estar realmente inseguro para deixar-se flexionar pelo maldito cursor.

Lá fora chove. Como chove no mundo. E morre, como morre no mundo. Alaga, claro que alaga, sabe? O ser humano é burro que se afoga nele mesmo, já viu?

Se pergunto muito, é mania que querer auto afirmação. Estupidez qualquer, como muitas outras bobeiras. Muitas vezes me perco entre o que penso e o que quero dizer, e acabo suspirando e afogando o pensamento. Eu disse, o ser humano é burro assim mesmo. E se afoga desse jeito.

Eu só senti vontade de escrever. E percebi que o cursor cedeu ao meu dedilhar, como se tivesse uma arma apontada para sua cabeça achatada e obediente. Uma caneta ofereceria mais resistência, se quer saber. Mas eu não resistira a expor algumas bobeiras. Estupidez qualquer, como sempre.

E lá fora continua chovendo. Morrendo… Pensando e afogando. Aqui dentro?

O cursor corre e a insegurança escorre aos poucos pela vidraça da minha janela.

Percebo agora que as vezes quando ando meio perdida, o que sinto é apenas o momento. E as vezes, um cursor piscando no monitor em branco.

Sobre Mim, Sobre Você

Observa e conhece o meu pai, a minha mãe, as minhas avós, o meu avô. Pára para imaginar situações e experiências que já vivi, em relativamente pouco tempo. Depois de absorveres toda essa informação, vira-te agora para quem me rodeia, para os meus mais próximos amigos, para todos os namoros que já tive, para aquelas pessoas que “conheço”, sem ter falado mais do que duas vezes com elas.

Toma um pouco do teu tempo para visitares a minha casa, o meu bairro, a minha escola, a casa das minhas avós. Permanece uma semana em cada um desses locais, compreende o seu ambiente! Depois de teres recebido todos estes fatores, aprende a rir-te todos os dias, o dia inteiro! Aprende a sentir o coração apertado quando vês uma criança na rua a chorar; aprende a esboçar um enorme sorriso ao veres um bebé a sorrir quando te vê, aprende a aceitar um corpo cheio de defeitos e aprende a ultrapassá-los todos com uma enorme gargalhada! Aprende a rires-te de ti mesmo…parte o côco a rir quando te vês ao espelho! Ama! Sofre calado, conservando tudo para ti, até chegares a um ponto de rutura e aí comete o erro de descarregares em quem menos merece e de quem mais gostas! Cai, mas aprende a levantar-te, sacudir a poeira e a continuar em frente de cabeça levanta, aprendendo que se calhar é melhor olhar para onde vais!

Apaixona-te pelo que fazes, e sê o mais crítico de todos quando se trata do teu próprio trabalho! Enamora-te pelo teatro e pela escrita e, principalmente, sê sonhador! Sonha o mais alto possível…alto demais até para ti próprio porque só assim irás mais longe!

Depois de teres feito isto tudo que te disse talvez já compreendas um terço da imensa confusão e complexidade que sou interiormente. Mas se não tiveres aprendido, simplesmente a sorrir ao ouvires uma música antiga; a sorrir ao veres o pôr-do-sol da tua janela…se não aprenderes a dar um enorme valor à tua família e aos teus amigos mais próximos… aí estarás muito longe de conhecer me

Texto retirado de Sobre Mim, Sobre Você.