Alô 2012!

Bem, vamos para outra retrospectiva, não é? Mais pela força do hábito do que pela necessidade. Na verdade, eis uma coisa que adquiri esse ano, infelizmente: Mais distância do blog.

Talvez eu volte. Sempre há planos, em todo o caso… Mais textos, mais reviews, mais viagens, mais experiências… Um curso de fotografia,  o desafio de perder peso, um curso de francês, de guitarra… Planos nunca faltam a um novo ano, embora falta a verdadeira disposição de realizá-los.

Certo, reflexões da madrugada, da virada de uma noite para a outra, de um final de mês para um começo, a quem todos chamam de “vida nova” e coisas do gênero… Bem, para mim, a vida é a mesma (mas melhor), felizmente. Sou a mesma também. Mudanças?

Ano passado eu creio que foi um ano de grandes… Como chamam? Revelações, eu acho. Depositei minha fé na pessoa errada, meti os pés pelas mãos, mas acho que todo mundo precisa fazer isso de fez em quando pra ter certeza das coisas importantes e de seu real valor. Acabou que o mundo não se acabou, vejam só. Fui surpreendida. A raiva passou, a razão veio a mim e aprendi o que o coração tem de passar pra provar pro cérebro que, no fundo, ele sempre tem uma pontada de certeza. Perdi alguém importante, todos nós perdemos. O ruim de verdade é ver o mesmo mal que se abate em você roubar outras pessoas. Ninguém de fato deseja isso pra quem ama. Mas o que aconteceu, o que foi fulminante, se foi e não volta mais, e nos deixa aqui pra sobreviver. E eu fui muito bem amparada.

Dick voltou de mansinho. Como eu disse, fui surpreendida por coisas que eu não cria serem possíveis. Nunca creio que eu seja de fato tão importante para outras pessoas que não sejam ligadas a mim pelo útero ou sangue, rs…  Mas perdi esse tipo de crença tola, e aprendi que as pessoas que de fato amam, amam para sempre. E Dick foi quem me ensinou isso. Voltou, me recapturou, deu a volta por cima, apagou os erros, criou acertos maiores e fez tudo valer a pena. Reconquistou a aliança no meu dedo. Reconquistou o meu coração de uma tal forma que duvido de todo o coração que um dia podemos nos separar outra vez, e esta é uma das coisas que abomino sequer pensar. Não importa o quão clichê isso pareça, mas pertencemos um do outro para sempre. E mal posso esperar para passar o resto da vida ao lado dele. Mal posso esperar para acordar as manhãs e vê-lo do meu lado. Mal posso esperar por todos os filmes juntos, os parques de fim de tarde, as viagens de férias e fins de semana, os show de rock, os passeios de carro e de moto, as aventuras da vida, enfim, venham. Quero tudo que um futuro bom de verdade possa oferecer para nós. E apenas com ele. Meu Dick Grayson. Meu amado Dick. Minha verdadeira conquista e revelação, não apenas do ano que passou, mas de todos os que virão, com certeza. E não importam nossas diferenças, nosso preto e branco, nós combinamos até mesmo nos opostos. Os amigos, a família, não há ninguém que discorde. E a cada novo elogio ou olhar eu percebo que eu não podia ter feito uma escolha mais acertada, não importa o que tivemos de passar ou o que ainda teremos. Tudo é tão perfeito quanto poderia ser. Não consigo deixar de rir sozinha depois de lembrar de amigos dizendo que não podíamos ser um casal que combina mais, tão divertido, tão natural, tão cheio de amor. Como disse um amigo “Parece que vocês namoram há uma semana, e não há um ano. Até eu queria ter isso”.

A família, essa dádiva que tenho, nos acolheu sempre com o maior dos sorrisos. Aliás, a cada ano eu só tenho mais certeza de que a família é uma das jóias mais preciosas do meu baú. Vox, Petit, Harry, Lubs, Rub, Pete, Sunshine, Janis, Buttercup, e a minha novíssima em folha, e tão amada Little Mary. A cada ano que passa, só tenho mais certeza de que nunca quero deixá-los. De que, mesmo com os seus quens e poréns, são uma das maiores maravilhas do mundo.

Amigos, amigos, negócios a parte… 2011 foi, sem dúvida, uma reviravolta brusca nesse quesito. Minhas queridas e amadas Hay Lin e Taranee não sumiram das portas da minha casa, e nem da minha geladeira, rs… Embora, eu lamente dizer que vejo-as com tão pouca frequência que meu coração dói de pensar. Gostaria de voltar um pouco na época das festas de pijama, das noitadas de cinema, nas lanchonetes e sorveterias e praquela adolescência ao lado das amigas. Mas o tempo passa, o mundo muda e as coisas se vão. Will parece ter se juntado, mesmo que aos poucos, ao mundo inabitado de Cornélia. Se tornou tão ausente quanto temíamos. Mas é assim que a vida funciona, infelizmente. Tenha aqueles que não quer deixar escapar bem presos entre os dedos, ou eles os deixarão, hora ou outra.

Faculdade. Lá se foi o primeiro ano, tão logo ele veio. Na verdade, tenho até satisfação de ver como ou novos vestibulando estão preocupados com algo de que eu já risquei da minha lista. Não sou mais bixo, e eu nem sofri trote. Sabem como é, meu espírito esportivo acabaria em assassinato antes de passarem tinta pelo meu rosto. Mas, vamos ao que interessa… Amigos!! Novos em folha! Moe já se tornou indispensável no cardápio, minha pequena versão com um pedacinho de mim mesma. Tatuagens, rock’n’roll e devaneios. Tem também o Ryu, que não é tão próximo a mim como Moe, mas pelo menos é um camarada e tanto, entre outras grandes novas amizades e coisas do gênero. Aulas, bares e mais bares. Baladas, vida noturna e tudo o que uma vida universitária exige. Fico feliz comigo mesma de ter conseguido passar sem nenhuma DP, pois é a melhor faculdade do ramo, e a mais difícil… Ter passado para o próximo ano é quase que inacreditável, assim, rs…

Alterações no corpo: Finalmente, coragem! Passei um pouco por cima de minha fobia a agulhas e perfurei o nariz e tatuei LET IT BE no pulso. Não poderia estar mais feliz, nem mesmo com o cabelo preto bem pintado e cortado, as roupas novas… Enfim, como já mencionei, só me faltam uns quilos a menos.

Shows e viagens: Conheci Las Vegas! Conheci Atlanta! Ah, e que sonho são os lugares do mundo. A viagem começou entupida de saudades de Dick e de Little Mary. Mas tudo o que vi e vivi foi incontável. Las Vegas e seu constante estado de balada é tudo o que mostram nos filmes e mais. Muito mais!! Uma pena que fui enquanto menor de 21, e nada pude fazer a não ser olhar as coisas, mas mesmo assim, valeu mais que a pena. Finalmente realizei meu sonho de ver o espetáculo do Cirque du Soleil sobre os Beatles, um dos mais lindos shows que eu já vi na minha vida inteira. Fiz a maior loucura da minha vida, e fui nos brinquedos daquele parque de diversão que fica em cima de um prédio de 110 andares, o Stratosphere. Fiz tirolesa, andei de helicóptero, de jet ski e tomei café da manhã no meio do Grand Canyon. Andei de Hummer no meio do deserto. Visitei o Hard Rock local, me hospedei no Planet Holywood, enfim… Aproveitei a cidade infernal (se comparado à aqui, o calor do deserto consegue ser bem pior). E voltei com vontade de regressar! Ainda quero ver Las Vegas outra vez, e partilhar isso com Dick e com Moe. Atlanta, em si, foi um encanto à parte. O centro da cidade parecia encantadoramente congelado nos anos 80. Cinemas, grandes lojas, gramados verdejantes, jazz para todo o lado. E o aquário!! O Aquário mais lindo que já vi na vida! E ainda perdi a oportunidade de mergulhar com os grandes peixes, tubarões e arraias gigantes. Ainda voltarei lá para isto, assim espero. Conheci a maravilhosa Paranapiacaba, na qual planejo até ter casa, rs…

Shows e mais shows! Na agenda cultural, além do Cirque du Soleil LOVE, dos Beatles, em Las Vegas, pude me deliciar com outros grandes astros do Rock. Com Dick e Moe, logo no começo, fui conferir o grande Ozzy Osbourne. O Show foi de morno para frio, mas como não foi muito caro, valeu a pena a brincadeira. Tivemos Ringo Starr, em um show maravilhoso e cativante, Pearl Jam, no show mais épico do ano de 2011, sem sombra de dúvidas, com Dick, Vox, Sunshine e Lubs… Cirque Du Soleil, o Varekai, aqui mesmo em São Paulo… Zombie Walk 2011, que fez valer a pena não ter ido no Anime Friends para viajar a Vegas… Grandes filmes, excelentes livros. Um bom ano em questão cultural, creio eu.

De vitrola e LPs novos, com muitos CDs, um namorado maravilhoso, uma família hilária,  bons amigos e novas esperanças, espero novas experiências deste ano. Uma viagem ao Chile, quem sabe, não é? Um carro, finalmente! E muito Rock’n’roll… Que venho 2012!
E que venha o fim do mundo maia!

People Are Strange, When You’re A Stranger

Se há algo nesta vida que definitivamente me fascina cada vez mais é esse tal de destino, ou coincidência, ou como quer que chamem.

Eu chamo de acontecimentos exatos. As vezes são tão precisos que é até incômodo chamá-los de randômicos ou de simples acasos.

Oh, desculpem-me se ainda não me fiz entender. Já tratarei disso em um instante. O fato é que as coisas parecem acontecer do jeito que deviam, justamente nas horas em que não temos qualquer controle da situação. Assusta, sim, mas a graça é a surpresa da exatidão do tempo.

Nunca aconteceu de o timing de você pegar o telefone para atendê-lo fora o mesmo que um amigo teve para lhe telefonar? Ou que por distração abrisse a porta e lá estava a pessoa que você queria encontrar. Conheceu um alguém novo e quando se deu conta, percebeu que o havia conhecido na infância, mas que o tempo em que não se falaram foi o suficiente para que pudessem montar uma amizade boa no momento atual. Falou com alguém distante e dias seguintes, esbarrou com tal ser na rua. Esses esbarrões, esses tropeços, esses encontrões aparentemente Acidentais já aconteceram com todo mundo… Mas são poucos os que percebem suas singularidades.

É por isso que devo contar de alguns que já ocorreram comigo, se me permitem.

Uma vez, há um bom tempo atrás, enquanto eu voltava de avião de uma viagem do Rio, eu segurava meu ipod, enquanto me distraí e comecei a cantarolar baixinho alguma música dos Beatles. Então, este homem um tanto gordinho, cabelo ralo, branquíssimo me escutou, pois estava sentando-se do meu lado. Deu uma espiadela na tela de meu ipod, para confirmar que de fato eu escutava o que estava cantando e então me cumprimentou em inglês. Se apresentou como Sid, e era da Califórnia. Tinha um filho da minha idade e uma bela esposa. Conversamos sobre a vida, sobre música e assuntos variados. O homem no fim sorriu e disse que nunca havia conversado com o filho da maneira que estávamos conversando. Achei incrível a sinceridade do estranho comigo, e o agradeci. Já quando estávamos fora do avião, e eu procurava por minhas malas, meu amigo Sid veio até mim para cumprimentar-me uma outra vez e expressar o prazer que fora podermos ter conversado. E foi-se embora. Nunca mais eu soube do velho estrangeiro.

Há meses atrás, enquanto eu estava em um ônibus, aleatória ao universo ao meu redor por estar escutando o bom e velho rock em meu ipod, eu girava uma palheta branca dos Beatles na mão. Reparei pelo reflexo da janela que um rapaz de pé me observou de relance e sorriu. Eu, com todo meu bom humor e simpatia… Olhei pra qualquer outro lugar com o mesmo desinteresse de sempre, rs. Alguns extensos minutos depois, senti minha palheta sendo levada da minha mão e me virei preocupada. Aquela palheta branca dos Beatles era meu tesouro. E então, o rapaz do reflexo estava ali sentado do meu lado, com o mesmo sorriso no rosto, segurando minha palheta. Não entendi lhufas do que aquele maluco estava fazendo, e foi quando ele levantou uma palheta igual a minha com a outra mão no ar, mas na cor preta. Achei incrível, era muito mais legal que a minha! Depois de dar risada da brincadeira, ele me devolveu minha palheta branca e começamos a conversar sobre Beatles, acordes e Rock, e descobrimos que ambos havíamos começado a tocar violão haviam poucas semanas. Ele perguntou-me se eu ia descer no ponto em que ele precisava, mas eu só desceria três pontos para frente, e aquela foi a despedida. Cheguei em Pinheiros, no meu ponto, rindo sozinha, com a bizarra sensação de ter sido achada por um maluco de gostos similares num mundo onde eu geralmente sou o alien.

Meses depois, enquanto estou em bateria de vestibulares, exausta, deixo o edifício da Unip, onde eu tinha realizado prova para a Cásper Líbero. Distraída como sempre, na estação Tietê, comprei meu bilhete e esbarrei sem querer com uma garota de meu tamanho e idade, segurando a mesma apostila de provas que eu havia acabado de terminar. Descobrimos que prestamos ambas para o mesmo curso – Jornalismo. Trocamos informações sobre a prova e então ela apontou para minha camiseta dos Beatles e perguntou se eu iria ao Show do Paul McCartney. Sim, eu ia! Ficamos todo o trajeto de metrô conversando sobre a expectativa do show, das músicas, e da raiva contra a prova impossível que havíamos acabado de fazer. E assim, sem nem saber seu nome, viramos as costas e não nos vimos nunca mais.

Num evento que anualmente vou, o Anime Friends, fui vestida de Hippie com uma amiga. Lá, é praticamente sempre certo que você encontre gente tão louca quanto você. E pra mim, que sempre me achei particularmente deslocada, é um grande alívio, hehe. Mas nunca havia ido de Hippie e era algo que ninguém havia feito também. Levei meu violão preenchido de frases dos Beatles pintadas a mão por mim mesma. Já no evento, o primeiro que se juntou a meu grupo foi um cara meio maluco, simpático e com um sotaque engraçado, vestindo uma camiseta do Sgt. Peppers. Eis que conheço André. Andou conosco por pouco tempo, cantou e tocou algumas músicas e sumiu por todo o resto do evento. Então, enquanto eu e minha prima andamos distraídas pela praça de alimentação, eis que somos abruptamente paradas por um grupo de 4 garotos vestidos em ternos e com instrumentos de Rock Band na mão. Sim!! Eram caras fantasiados de Beatles Rock Band!! E duas Hippies!! Nem é preciso dizer que todos surtaram. E num intervalo de 5 minutos entre algumas fotos, elogios das fantasias, nos separamos. Alguns dias depois do evento, sou encontrada em minhas redes sociais por todos. Aparentemente, o maluco do André havia criado um tópico na comunidade do evento procurando por mim e minha prima e nossos contatos foram passados. E no mesmo tópico, os Beatles nos acharam. E o contato permanente fora finalmente reestabelecido. O engraçado é que, meses depois, enquanto eu fui encontrar dois dos “beatles” na Galeria do Rock, esbarrei em André. Foi de fato uma série de coincidências engraçada de se ver.

Há pouco tempo atrás, eu me encontrava na plataforma de trens no Brás, vestida como usualmente me visto, distraída como sempre. Era um dia um tanto chuvoso, mas eu estava de shorts por burrice. Um rapaz me encarava teimosamente, enquanto eu fechei minha cara numa expressão próxima ao ódio. Vendo que o insistente não se virava, percebi que o trem se aproximava e dei um passo para trás. Foi só então que olhei para o pobre infeliz e sorri. Mas é claro que foi um sorriso maléfico. Os trens, em dia de chuva, ao passarem pela plataforma soltam pequenos jatos de água em quem fica mais próximo, o que molhou o estúpido distraído com a coisa errada, e me fez rir perversamente. Satisfeita, me aproximei da entrada e reparei que um outro cara havia visto minha brincadeira maldosa e ria também. Era cabeludo, devia ter por volta de 40 anos, vestia shorts também, uma blusa branca e um colar de uma ossada miniaturizada de cabeça de boi, além de ter os membros do corpo fechados em tatuagens. Ele aproximou-se de mim e apontou para minha camiseta preta, perguntando se eu curtia The Who (essa era a estampa dela). Então o assunto fora iniciado. Citei algumas de minhas bandas preferidas além do Who, enquanto ele me mostrava tatuagens do Jim Morrison ou de álbuns do Zeppelin. Disse que morava em Tihuana, e que havia estado em São Paulo apenas para visitar a família. Ele trabalhava como Roadie para algumas bandas internacionais de Rock importantes, e no momento ele acompanhava o AC/DC. Havia bebido com Axel Rose, Eddie Vedder, estado no show do Queen, no do Police, conversado com o Ozzy… Enquanto isso eu babava na carreira do cara como um cachorro encara um frango na padaria. Minha estação havia chego e eu tive de descer do trem, sem nem sequer adquirir o contato do Roadie maluco, afinal, ele vivia em movimento. Uma pena.

O encontro relevante mais recente que tive foi na plataforma de metrô Tucuruvi, quando um rapaz loiro e pálido, de cerca de 30 anos se aproximou e apontou para a estampa em inglês de minha camiseta e me perguntou se eu falava o idioma. Respondi que sim e então o rapaz se postou do meu lado. Em sua língua estrangeira, descobri que era um budista que viera para o Brasil trabalhar com internet e montar um consultório de massagem especializada. Ele era do Canadá, na verdade, seu nome era Craig. Conversamos sobre religiões, filosofias, lugares pra se conhecer, experiências de vida… E quando ele percebeu, estava descendo 5 estações depois da sua, em minha companhia. Expliquei para o rapaz como ele poderia chegar onde desejava pelas linhas de metrô e ele pediu meu contato, pois estava passando alguns dias em São Paulo e não tinha idéia do que poderia aproveitar. Dias depois, me ligou e discutimos sobre bons filmes para ver em dias de chuva, parques a se visitar em dias de sol e ruas divertidas para curtir uma boa noite de agito. Depois, não mais tenho notícias de meu amigo canadense. Uma pena, devo dizer também.

Estes são apenas breves e recentes exemplos dos grandes esbarrões que temos na vida, com completos estranhos aleatórios, na rua, no metrô, no ônibus… Que podem mudar nossa vida, perspectiva e ânimo. Alguns deles eu não lembro o nome. Outros eu possivelmente nunca mais encontre. Mas é num desses tropeços malucos da vida que você encontra aliens similares a ti mesmo, dispostos a partilhar um pouco de seus momentos com um completo desconhecido, e se fazer lembrar de modo impactante e divertido.

Portanto, não se prive dos grandes encontros da vida. Mas não precisa procurá-los também. O Universo se encarrega em jogar as oportunidades no seu colo e trombar as marionetes por diversão.

Não sei vocês, mas eu me divirto, pelo menos. Hehe.

Mais ou menos assim…

Podia viver a vida toda assim.

Numa casinha de poucos cômodos, um jardim bonito, cheio de borboletas, libélulas e aranhas, do lado de uma mata verde.

Pegar frutas do quintal e aprender a gostar delas.

Tirar a mesa do café, acordar com sono, dormir sem ele.

Escutar boa música, ver o sol, ver a chuva.

Ter companhia, silêncio, risada, bobeira.

Uma saia comprida, um relógio antigo, um bom livro.

Uma corrida de cavalo, uma cidade pequena.

Rolar na grama com os cães, falar bobagens sem sentido.

Tocar qualquer coisa no violão, sentar na varanda por horas, balançar na rede por outras.

Não ter ideia de que horas são ou que dia estou.

Saber das coisas só olhando pro céu.

E arranjando tempo pra escrever o que dá na telha.

Mais ou menos assim…

Coisas com nomes. E uma tal de vida…

Tem quem chame de inspiração. Outros chamam de amor. De respiração. De raio de sol, gota de chuva, luz do luar, estrela. Pode chamar de nuvem, de vento. Chame de satisfação.

Tem quem chame de Deus, Alá. Chame de harmonia, fôlego, perfeição.

 Outros chamam de perda de tempo, talento, dinheiro, que seja…

Chame como bem quiser.

Eu chamo de sentido da vida.

Chamo de felicidade plena.

Chamo de natureza.

Chamo de momentos, espalhados pelas folhas, sorrisos, companhias, descobertas…

E essa tal de vida.

No fim das contas, não existe um nome certo. Impressões e sentimentos mudam no olhar de cada um que vê. São só nomes dados por alguém que precisava dar nome a várias coisas. Mas não muda o fato de tudo ser apenas uma coisa só.

Uma grande bola verde azulada flutuando num espaço negro e estrelado.

Com uma lua, um sol, e vários planetinhas.

Com vários animais, pessoinhas… E uma garota sentada numa varanda, olhando pra natureza e passando seu tempo colocando nome em coisas e sentimentos…

Olhando pra natureza.

Tendo um surto bobo de “inspiração” e teclando sobre vida.

Irônico, não?

Mas e você? Como chama?

Da noite pro dia.

Sem retrospectivas. Sem memórias rebuscadas. Sem complexidades. Por enquanto, talvez.

Tentei de todo modo descrever esse ano, como vi tantos outros fazerem, mas não é algo que consigo fazer tão facilmente.

Foi incrível, foi indescritível, e por isso, dispensa quaisquer descrições, qualquer tentativa de passar pro monitor sentimentos intransponíveis, acontecimentos extraordinários e situações inimagináveis.

Desisti então de qualquer pensamento que exigisse demais de meu bem-estar mental e físico, e deixei-me levar pelas cenas que me arrastavam na vida.

Fui passar a virada do ano com meus tios e primos, o que foi extremamente agradável e compensador.

Tínhamos Vox online conosco, depois de um bem feito churrasco, já na sala, assitindo ao DVD do 360º do U2. Ela aprontava-se para uma festa lá no outro continente, enquanto aqui no nosso, já contávamos os minutos para a virada da noite. E foi então que meu tio disse: É nessas horas que você percebe a asneira que é contar as coisas pelo tempo, pelas horas. Nós aqui já começando a escutar os fogos e você, Vox, só vai comemorar a mesma coisa daqui a três horas.

Bateu a meia noite, tomei os primos no embalo, e fomos ao telhado, para ver o espetáculo de fogos. Ficamos todos ali: eu, lubs, Harry, Petit, Sunshine, Pete e Rub, deslumbrados com aquele céu cintilante e multicolorido de um espetáculo que rompia de todos os arredores. O motivo é tolo, e todos sabemos, mas temos de admitir que a diversão pelo fogaréu é excitante. Um a um, foram descendo do telhado, deixando-me a sós com lubs. Ouvíamos Beatles e Marley em meu celular, olhando os resquícios dos raios vermelhos, verdes e amarelados cruzarem alguns pontos distantes no céu.

Ela então desceu dali e eu fiquei sozinha, deitada, olhando as nuvens se moverem pela noite, acompanhada de Joplin, Pink Floyd e Zeppelin. Tentei organizar os pensamentos mais uma vez junto aos acontecimentos do meu ano… mas tudo o que eu conseguia ter em mente eram as nuvens em movimento e a melodia de Let The Sun Shine – 5th Dimension tomando meus ouvidos. Percebi então que eu havia mudado incrivelmente aquele ano. Não só de aparência, mas de pensamento, comportamento… de coração.

Fiquei maior, mais ciente, um tanto menos tolerante, um tanto mais mente aberta, muito mais rebelde, largamente crítica, até mais depressiva, mas também, mais espontânea e leve. Mudei opiniões, voltei-as, moldei-as, mudei outra vez, cultivei sentimentos maiores, alegrias impensáveis, tristezas também. Tive em mim o extremo de tudo o que nunca imaginei poder ter, e um tanto mais, e muito menos…

Lembro de que li que medir mudanças por tempo de anos é ridículo, é só uma idiota medição de tempo que alguém decidiu estabelece. Pois mudei muito mais no decorrer dos meses que numa virada de noite qualquer, dum tal de dia 31 pro dia 01 de 2011.

Foi então que levei uma bolada na testa. Harry subiu no telhado atrás da bola de vôlei, rindo de mim. Sentou do meu lado, e ficou ali me escutando cantar as melodias que vinham sem fim, as vezes batucando no ritmo pra acompanhar.

– Você é meu anti-social preferido, sabe? – E eu dei risada.

Ele fez algo como uma careta, soltou um “Oown” e continuou batucando e me mandando mudar de músicas.

– Vamos andar de bicicleta? – Ele sugeriu, e eu, nada boba, levantei rápida e descemos dali.

Passamos a próxima hora da madrigada, eu, lubs e Harry rodando pelas ruas desertas, ainda acompanhados de Beatles, Doors e Police, como os reis do mundo. Sentindo o vento da madrugada batendo forte no rosto, as folhas das árvores roçarem nas mãos, uivando a todo pulmão, como malucos, rindo e escutando o eco das risadas entre as sombras dos postes de luz nas ruas abandonadas.

Encerro minha noite sentindo-me da mesma forma como pude me sentir naquele telhado, naquela bicicleta, aproveitando minha noite com dois de meus melhores acompanhantes em todo meu tempo de vida. Aqueles que mais me viram mudar e me tornar o que sou…

Sem a idiotice de uma “virada de ano”. E sim, pela vida experimentada.

Uivando a todo pulmão.

E olhando pras nuvens no céu… Tão inconstantes como sempre fui e ei de ser.

Ah, claro. Um bom “2011” pra você também. Ou que seja… rs

TUDO BEIN IN THE RAIN?!

ANSIEDADE.

Com o estômago embrulhado na madrugada do dia 21, era tudo o que eu sentia. MUITA ansiedade!! Mal conseguia pensar em dormir! Aliás, só mesmo um bom The Magical Mistery Tour pra me fazer pegar no sono em paz. Batem 7 horas da matina, é hora de pular da cama e correr pra se arrumar. Chegara o dia 22 de novembro!

Pelas oito, o Morumbi já apresentava bom movimento.

Tomamos lugar numa fila, cantamos Beatles e tocamos violão com um novo grupo de amigos (daqueles momentos que ficam pra sempre no coração), encaramos um sol escaldante, mudamos de fila, entramos em pânico, furamos fila, nos acalmamos, mudamos de fila outra vez, entramos em pânico uma outra vez, reencontramos amigos, furamos a fila de novo, tomamos MUITA chuva, arranjamos briga, nos acalmamos, cantamos todos, rimos, brincamos, nos revoltamos com o atraso, com a falta de organização, com o caos… E os portões abriram.

CORRERIA!! CAOS!!!

Um lugar na grade, perfeitamente em frente ao palco gigantesco.

CHUVA. ANSIEDADE.

Horas a fio de pé. Cansados, esgotados, estressados, esmagados, persistimos. De pé. Sem descanso.

Anoitece. As luzes se acendem. O estádio está lotado. Todos gritam em polvorosa. Faltavam tão poucas horas que isto nem sequer importava. Ficamos ali de pé em êxtase profundo, na chuva, até que os telões se manifestaram, e tudo escureceu.

ERA CHEGADA A HORA.

Sir Paul McCartney irrompe no palco. A afobação é incomparável.

Ele sorri, brinca, conversa. Com todo aquele jeito incrível de ser que ele tem. E então, o coração pára…

As músicas começam a irromper de sua guitarra, de seu baixo, de seu piano… Uma atrás da outra, uma mais incrível que a outra.

A empolgação, a majestade de ver meu sonho se realizando aos poucos, aquele sonho que você guarda com carinho, desde criança, como um brinquedinho de cristal, luminoso, especial, único. Ali, se realizando. Ali, estridente numa guitarra, num palco inacreditável, com um ídolo inigualável, tomando voz. Acontecendo. Bem ali na sua frente…

Lágrimas. Gritos. Pulos. Cantoria. Luzes. Fogos!!!

Tudo de ruim não importava mais. Nada importava mais… Que gritar e estender as mãos pra chegar um pouco mais perto daquele sonho. Daquela superação da perfeição em viradas de acordes.

Fora tudo tão lindo. Tão magistral e inacreditável. Chorar não adiantava. Gritar nunca era o suficiente. Pular não saciava a excitação. Era preciso entregar a alma.

E eu entreguei.

Junto com cada música, eu quis entregá-la por completo. Junto com cada acorde, e cada palavra, e cada risada.

E o corpo, que antes encontrava-se fraco e exausto, era renovado com todas as vozes que se doavam ao palco. Com todo aquele afeto que era transmitido a todos.

ALL YOU NEED IS LOVE.

Segue a Setlist mais perfeita do Universo:

Magical Mystery Tour
Jet
All My Loving
Letting Go
Got to Get You Into My Life
Highway
Let Me Roll It/Foxy Lady (Jimi Hendrix)
The Long and Winding Road
Nineteen Hundred and Eighty-Five
Let ‘Em In
My Love
I’m Looking Through You
Two of Us
Blackbird
Here Today (for John Lennon)
Bluebird
Dance Tonight
Mrs. Vandebilt
Eleanor Rigby
Something (for George Harrison)
Sing the Changes
Band On the Run
Ob-La-Di, Ob-La-Da
Back in the U.S.S.R.
I’ve Got a Feeling
Paperback Writer
A Day in the Life/Give Peace a Chance
Let It Be
Live and Let Die
Hey Jude

1ºbis:
Day Tripper
Lady Madonna
Get Back

2ºbis:
Yesterday
Helter Skelter
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise)/The End

E assim, eu vivi a experiência mais incrível e esperada de toda a minha vida.

Meus maiores e sinceros agradecimentos para aquele que trouxe esse sonho de toda a vida para a realidade.

Muito obrigada, Sir Paul McCartney!

Collecting Moments

nesses três meses de sazunidos, mudanças, saudades, chororôs e viagens incríveis… eu tento todo dia achar razão, algo que me diga que esse é o ano da minha vida. e não há dedos pra contar quantas coisas absurdamente legais tão acontecendo, mas ainda sim o peito sente aquele vazio, aquele desconforto de ‘o que tô fazendo aqui?’. e de repente, me dou conta de que não há como querer achar sentido ou querer mensurar o quanto isso tudo é maravilhoso. só quando eu voltar pro brasil, quando pegar minha rotina de volta, quando abraçar minha família e voltar pra casa de portão azul número 802, é que vou me dar conta de quanto meu ano de au pair foi sensacional, de quanto eu gostava de tudo aqui, de quanto minha família vai me fazer falta. pois é seres humanos, estamos confinados à saga da felicidade plena para sempre. podemos até saber quando somos somos plenamente felizes, mas conciência mesmo… só quando o momento passar. afinal de contas, a felicidade está presa em pequenos vidrinhos de acontecimentos. uma foto, um sorriso, um vento na cara, e quando vc abriu os olhos, puf!

Passou!

Texto de Giulia Ciavatta