A Queda da Casa de Música

Mais uma vez, em exercício para faculdade, foi pedido pelo professor um texto descritivo. Podíamos dissertar sobre qualquer coisa, desde que a descrição do ambiente, do personagem ou da situação fosse o foco. Foi pedido um pouco de narração. Afinal, descrição sem narrador é apenas parnasianismo, não é? hehe. Mas deixando os chatos de lado, vamos ao exercício, que é o que nos interessa. Creio que tive liberdade suficiente pra fazer o tipo de texto que de fato me agrada. Ei-lo aqui:

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A QUEDA DA CASA DE MÚSICA

Era cedo demais para o meu gosto. Daquele tipo de cedo em que o sol ainda está ameaçando aparecer entre as nuvens, depois de uma madrugada mal dormida. Aquele cedo cinco e dez da manhã. As pessoas na rua, afortunadas – pensei comigo – ainda estavam pensando em seu café, e eu já tinha um assassinato nas mãos. A casa era muito velha, rangia só de olhar. Casa de esquina, tradicional, de família antiga na cidade. Os Penber, donos da casa por gerações, haviam sido grandes em tudo. Sapataria, alvenaria, destilaria, mas o último empreendimento antes de tudo dar errado fora uma loja de música. O primogênito Charles Penber era o tipo de excêntrico que cabia na ficha criminal. Me esperava na saleta úmida e escura, logo depois da varanda, casa adentro. Segurava um violão gasto, e dedilhava lamentavelmente uns acordes opacos, tremidos e tristes. Sentei-me num banco abandonado à sua frente. Eu parecia ser o primeiro policial a chegar à cena, pois as marcas do meu sapato na poeira estavam solitárias. Charles, que não havia levantado a cabeça para me olhar de frente, fedia a pólvora.

Olhei para os fundos da casa. A vítima resistiu à Charles, derrubando os móveis espalhafatosamente pelo chão. Os vizinhos tinham alertado sobre o barulho todo, que era descomunal para os irmãos Penber. Algumas gotas de sangue no colarinho e no tórax do violonista, marcas de quem arrastou um corpo ferido. Finalmente ergueu a cabeça. Seus olhos azuis de um tom noturno estavam cansados, denunciando suas noites de insônia e medicamentos. Seu rosto estava abatido, quase esquelético, havia tempos que não tinha uma refeição decente. A pobreza tinha alcançado seu corpo de pedra, grande e imponente, mas curvado pelo tempo, castigado. Os dedos, longos e finos, estavam desgastados pelas cordas de aço do instrumento, prova de que tocava com constância. Suas roupas pareciam ter sido casa de traças e pequenos roedores, esburacadas.

Riu para mim, um sorriso sincero, com todos os dentes amarelados de Marlboro. Ergueu a mão para me cumprimentar, de forma vaga e trêmula. As mãos ainda estavam quentes, a cintura carregava um revólver. Levei discretamente minha outra mão para dentro de meu casaco, e Charles riu de viés, a voz gutural e rouca de gritar. – Não se preocupe, oficial. O meu serviço já foi cumprido. – Ele declarou. Podia prendê-lo ali, o corpo da irmã jogado na banheira do cômodo de cima, o sangue dela em sua roupa, a arma do crime com suas digitais, só não eram evidências mais gritantes que sua confissão, e eu estava curioso. – O que te levou a isso, Charles? – E ele voltou a tocar, desviando o olhar de mim, carregado do mais venenoso orgulho. – É bem simples. Ela nos levou à ruina. Matou minha família. Que fosse junto pro túmulo, é como o mundo demonstra justiça.

Ofeguei, o ar comprimindo meus pulmões. Eu o tinha pego com a mão na massa, ou na viola. Lhe expliquei que teria de leva-lo dali, e ele seria preso pelo que tinha feito e ele riu uma nova vez. Percebi um tom de ironia quando falou que eu é que não entendia a situação. – A casa dos Penber caiu, meu amigo. Essa é minha última música, e foi feita exatamente para este momento. Não acha bonita? – E com alguns delírios, efeito dos medicamentos, ele continuou tocando e cantarolando baixo. Só então percebi que tocava I Started A Joke, dos Bee Gees. Suspirei impaciente, e ele voltou a olhar para mim. Quando me perguntou se eu conhecia a música, respondi que sim, e ele pareceu ficar satisfeito. O barulho dos carros de polícia se aproximando me chamou a atenção para a porta, e tudo o que vi depois foi um borrão. Em um acorde terrível, Charles acertou-me com o violão na costela, no momento seguinte em que eu saquei a arma. Suas mãos descuidadas puxaram seu revólver da cintura, e ele riu uma última vez, porém, com uma tristeza tão profunda quanto o crime que cometera. – Que seja saudosa a queda da minha casa, e que seja lembrada pelos acordes de pólvora, sonora vingança. – E meteu-se um tiro na goela para cima, o tampo da cabeça sangrando, enquanto o corpo monumental espatifava-se no chão. Tudo tão dramático e exagerado, pensei enquanto era socorrido. O exagero, como se sabe, é a matéria prima da piada. Mas esta já perdera a graça.

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