Morte. Vida.

Acordou aos poucos, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. Tudo estava tão escuro quanto breu. Lá fora já era quase manhã, mas ele não sabia. Na verdade, sabia de pouca coisa, mas de uma tinha certeza: De que sua cabeça doía. Que acontecera noite passada? Não se lembrava de muita coisa, apenas dos primeiros copos de vodka, luzes, conversa, um assobio alto e pronto. Breu. Foi então que, pela primeira vez, sentiu desconforto. Tentou tatear no escuro, se dando conta que também não sabia onde estava. Sentiu um pouco de terra entre os dedos. Sentiu um estofamento puído embaixo de si e ao seu redor, como se estivesse em uma caixa. Uma caixa pequena e desconfortável. Tentou respirar fundo, e outra nova sensação começou a lhe gerar um pouco de pânico… O ar estava pesado, daquele tipo difícil de se respirar, do tipo claustrofóbico e cheio de culpa. Suava muito, pois sentia o rosto muito molhado. Tentou se mexer, sem sucesso algum. A caixa era estreita e não conseguia sequer dobrar muito os joelhos, que logo batiam na parte de cima, produzindo um som opaco. A pontada de pânico puxou um nervo de sua nuca, parecendo marretar a dor de cabeça. E então, um flash. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth!”. Conversa, risada, um bar. Estava sentado na mesa, observando uma garota. Ela não tinha nenhum grande atrativo, na verdade, mas o batom vermelho que usava despertava a atenção dele. Ficava de canto, bebia discretamente, isolada do ambiente. Lábios vermelhos. Estofado. Estava na caixa outra vez, com dor de cabeça. Aquela era a maldita hora em que pedaços de memória começam a brincar com o inconsciente, ele sabia bem. “Onde diabos estou?” Ele falou baixo, escutando sua voz abafada e rouca. A garganta ardeu como se tivesse engolido vidro. Tentou forçar a parte superior do estofado, que não estava muito acima de seu nariz. Nada, nem sequer um movimento. Tentou escutar algum barulho externo. Nada, nem sequer um lamento. Suspirou. Onde diabos estava?

“Kenneth? Está me ouvindo?” Disse uma voz masculina. “Cale a boca, que estou te ouvindo em excesso” ele respondeu. Na mesa do bar, seu amigo lhe contorcia o rosto e xingava qualquer coisa contra ele, e depois ria, mas ele só focava em uma única coisa: Lábios vermelhos. Ela ainda estava lá, sozinha. Fumava, agora, e ele virou o octogésimo copo pra dentro da garganta, que pegou fogo o suficiente pra fazê-lo se contorcer um pouco. “Hahaha, não acredito! Você é um maluco, Kenneth! Vai acabar vomitando até o que comeu semana passada!”. Mandou o amigo calar a boca e se levantou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido?” Que mais podia fazer, idiota? Iria falar com ela. Sabia que ela também queria. Ah, sim, ela queria sim. Pânico. Dentro da caixa, tentou dobrar os joelhos outra vez, batendo no teto. Repetiu o ato teimosamente por mais duas vezes, com mais força. Não cedia um milímetro sequer. Onde diabos estava? Tentou tatear os bolsos da calça, a coisa mais perto do alcance de suas mãos. Moedas, papel e desesperança. Era tudo o que carregava consigo naquele instante. Lixo, pensou ele. Que é que adianta essas moedas? Pra que merda vou gastá-las, se não consigo sair dessa maldita caixa? “Ora Kenneth, sossegue a bunda gorda na cadeira, não vá atormentar ninguém com essa sua língua podre”. Mas ele não deu a mínima. Estava bêbado o suficiente para falar com qualquer boazuda, e aquela ali não era nada demais. Álcool demais e garota de menos. A calça dela era apertada, a blusa pouco decotada, não mostrando nada que valesse tanto a pena assim. Mas os lábios vermelhos, aqueles lábios sim. Eram eles que o queriam. A garota olhou de viés e continuou a fumar seu cigarro. “Estou falando com você, gracinha. Como se não quisesse atenção com esse jeans apertado, hum?” Ele se ouviu dizer, como um bêbado fedido, se apoiando no bar. A voz dela saía, mas ele não se lembrava dela. Só dos lábios vermelhos, se movendo. Não gostou, seja lá o que ela tenha dito. Quem achava que era? “Está na hora de descer do seu castelo, princesa. Pare de mexer essa boca, e gaste esse batom com coisa melhor”, e ele avançou em cima da garota. Sentiu a mão de seu amigo segurando-o pelos ombros, e o encarou com raiva. “Está maluco, cara?” Tire as mãos de mim, seu bosta! E a cólera o tomou de instantâneo, levantando o punho fechado no ar, mirando exatamente no nariz do rapaz. Antes que percebesse, sentiu um baque forte na cabeça, cambaleou pelo salão e se espatifou no chão. As coisas foram ficando embaçadas.

Seu fôlego pesado o fez arregalar os olhos, mas de nada adiantava. A caixa era tão escura e sua escuridão impenetrável não aceitava sua curiosidade. Tentou outra vez bater o joelho na tampa, com tanta força que sua perna começou a doer. Outra e outra vez, até que sua cabeça começasse a reclamar de dor. Mais dor. “Tem alguém aí?!” ele gritou, e se calou em seguida, arrependido. Sua garganta tinha sido arranhada por gatos raivosos, com certeza.

Morte.

Vida.

Acordou, mas quando abriu os olhos, duvidou que o fizera de fato. A luz que o atingiu foi tão forte que ficou cego por alguns instantes. E então, viu um teto branco, a luminária pendurada, acesa. Aquele era seu quarto, ou não? Não tinha muita certeza. Mas sabia de uma coisa: Estava com dor de cabeça. A bebedeira do dia anterior o abatia como britadeira. Os músculos do corpo estavam doloridos, e levantar-se da cama foi difícil. E então percebeu: Que é que tinha acontecido com suas pernas? Não eram suas. Estavam mais musculosas, um tanto mais bronzeadas. Olhou seus braços: Estavam mais grossos, maiores. Examinou o abdômen, mais torneado e definido. Foi até o espelho e quase perdeu o coração pela boca. Não era ele que se via no espelho! O cabelo moreno bem penteado, o maxilar quadrado, os olhos azuis arregalados de espanto. Mas… aquele não era… Mas… o que é que tinha… Como é que…? E antes que se desse conta, ficou zonzo demais, caindo com força no chão.

“Onde diabos eu estou?” ele se perguntou outra vez, tateando no escuro da caixa. Respirar o ar pesado e abafado começava a doer, como se tivesse levado um murro direto no nariz. Deu uma nova joelhada no teto, e a dor desta vez foi tanta que teve que desistir da empreitada. Aquilo não era típico dele, pensou. Anos de academia tinham deixado suas pernas resistentes, mas por algum motivo, elas doíam com o menor dos movimentos. Sentiu-se doente. Afora a dor de cabeça, sentia o corpo atrofiado. Sentia certa fraqueza, e muita falta de ar. Seus lábios estavam muito secos. Lábios vermelhos. Caído no chão do bar, estava com medo. “Medo? Que é que sou? Um rato?” Levantou-se e xingou a todos os pulmões, com seu hálito fétido. Arrastou o rapaz pelos cabelos escuros e maltrapilhos. Um pobre qualquer, que não suportava mais. Vivia o chamando de amigo, recusando que pagasse as bebidas, como se fosse um bom homem. Nenhum bom homem andava com ele, sabia bem. Todos o invejavam. Invejavam seus músculos, seus olhos azuis, seu carro e seu dinheiro. Jogou-o na sarjeta e prendeu-o embaixo de seu próprio corpo. “Você é um maluco Kenneth! Saia de cima de mim!” Gritou seu irmão. Sim, agora estava se lembrando. Levara seu irmão para comemorar o noivado. Levaram a noiva também? Seu irmão, semelhante a ele. Cabelos escuros, olhos azuis, exceto o corpo mirrado e a saúde debilitada. Nasceram do mesmo útero, mas Kenneth nasceu mais saudável. Roubava o alimento do irmão. Desde crianças, ele era um empecilho. Sempre doente, sempre carente, sempre o centro da atenção de seus pais. E quanto a ele, o saudável? O bonito? Superior? Pouco se falavam desde a adolescência. E então, recebeu a ligação dos pais, anunciando o noivado de seu irmão, cheios de orgulho. Pro inferno com o casamento e com essa besteira toda, ele pensou, mas não disse nada. Concordou acolher os noivos enquanto estivessem na cidade. Não entendia como seu irmão contentava-se com aquela mulher. Não tinha nada de especial. Pouco decote, nada pra mostrar. Só um par de lábios vermelhos.

“Querido? Está tudo bem?”, ela o apoiou pelas costas, preocupada. Aos poucos, sua cabeça deixava de doer, e ia se lembrando do que acontecera na noite anterior. Estavam brindando. Seu irmão, Kenneth, bebera mais do que o esperado. Sua noiva fumava no canto perto da janela, pois não era permitido fumar nas mesas. Pedira a ela na noite anterior para dar privacidade aos dois. Ele queria dar mais atenção ao irmão, que não via há tempos. Mas Kenneth insistia em lhe rebaixar. Estava acostumado, entendia que era como o irmão lhe mostrava preocupação. Mas as bebidas estavam demais, e ele começou a se portar extremamente mal. Ela escutava tudo de longe, cada vez mais irritada com a má educação do anfitrião. Mas prometera ao noivo deixa-los se entenderem. E foi quando Kenneth veio lhe faltar com o respeito que ela praguejou. “Que é que você vai fazer agora, seu bêbado fedido? Não cansou de maltratar seu irmão que veio até aqui te ver? Sossegue sua bunda gorda na cadeira, e não vá atormentar mais ninguém com essa sua língua podre”. E ele perdeu o controle. Avançou para cima dela, e o noivo tentou segurá-lo. Kenneth lhe acertou um murro direto no nariz e o arrastou para a rua. E ela só conseguia chorar e amaldiçoa-lo. Amaldiçoava-o com seus lábios vermelhos.

Tentou empurrar a tampa estofada com as mãos, mas não tinha força suficiente. Sentiu ter desperdiçado dinheiro naquela droga de academia. Por um instante, achou ser como seu irmão, fraco, desimportante e sem dinheiro, e riu de si. Riu de novo, de escárnio e de pânico. Pânico crescente. Apertou os punhos com raiva e esmurrou a tampa. Outra e outra vez. Esmurrava a cara do irmão com força, arrancando cada vez mais sangue, espirrando-o na rua. A mulher de lábios vermelhos lamentava e dizia qualquer besteira, que não se lembrava de forma alguma. Mas desta vez, se lembrava de quem ela era. Lembrava-se do que fazia. E mesmo assim, continuava a socar o irmão e a lhe jorrar sangue. “Anêmico ridículo, fracote, reaja!”. “Largue ele! Saia de cima! Você vai mata-lo!!”. A multidão saía do bar e desacreditava. O rosto, único traço idêntico de ambos, agora estava desfigurado de sangue, outrora de raiva.

Morte.

Vida.

“Querido, está tudo bem?”, ela perguntou de novo. “Acho que está”, ele respondeu, ainda zonzo. Sei que vai soar estranho, mas… “Eu sou eu mesmo?”. E ela riu, um pouco menos assustada. Não devia ter bebido tanto. “Sim, está”. Ele sempre fora o mais forte por dentro. Ele sempre fora o mais rico de alma. Sempre fora o mais bonito de espírito. E suas enfermidades físicas eram tudo o que lhe atrapalhavam. O irmão, ao contrário, não sentia-se atrapalhado por seu físico, mas era oco, pobre e feio como pessoa. Cruel, matara o irmão na sarjeta de um bar, pelo monstro que achava ser vítima: inveja. Ciúme. Possessão. Deixara-o ali, sangrando, sem piedade, a mulher o acolhendo nos braços.  Ele se lembrava disso, mas ela não. A realidade, na verdade, não se havia alterado. Só se tornado justa. Morrera aquele que tinha sido morto, pelas mãos do próprio irmão. E então, o corpo tomou seu lugar no túmulo. O feio, pobre e enfermo estava morto.

 Foi naquele instante, quando lembrou que matara seu irmão, que se deu conta. “Você é maluco Kenneth!”. Será que estava perdendo a cabeça? Cabeça… O que achava ser suor, sabia ser sangue. O que achava ser dor, sabia ser fraqueza. O que achava ser caixa, sabia ser caixão. E o que achava ser corpo, sabia ser cadáver. Estava pútrido, mudo. Mas ainda tentava gritar, com a garganta estrangulada. Não havia ar, nem desconforto, nem dor de cabeça ou lembranças. Só crueldade sepultada. E breu.

Morte.

Vida.

Ele estava ali, vendo o túmulo do irmão, sem nome. Sabia que era ali. Lembrava-se de ser enterrado no escuro, na calada da noite, por um culpado manchado de sangue, sem piedade. Na surdina, como um pobre doente merecia. Mas ele não merecia. E ambos sabiam disso. Ali, naquele silêncio gritado, não precisavam trocar palavras. A última memória de suas vidas era o epitáfio sem lápide. Uma rosa vermelha solitária na terra remexida, ainda úmida. Lábios vermelhos. A noiva tomava o corpo ensanguentado do amado, que sem fôlego morria aos poucos. “Está tudo bem, querido”, ela repetia. E por fim, lhe selou um beijo com gosto de lágrimas, deixando a boca do cadáver marcada com seu batom vermelho.

“Está tudo bem, querido”, ela afirmava, enquanto lhe servia café da manhã com um sorriso no rosto. Os lábios rubros se aproximaram dos seus, lhe selando um beijo de bom dia, trazido com a manhã, com o sol e com as panquecas.

Morte.

Vida.

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