They Don’t Miss The Beat.

Já não é de agora que tenho essa sensação.

Olho pro lado de fora dos trens, a noite passa rápida la fora. Os carros na rua, o asfalto molhado, o alaranjado dos postes desnudando um pouco da escuridão. Os elementos formam um quadro urbano solitário.

De dentro do trem, as pessoas distantes não ligam para nada além de seus destinos. A noite lá fora é só uma noite qualquer.

Mas para mim, que escuto algo como Killers, Strokes, KoL, ou qualquer ritmo mais ofegante, a noite está longe de ser algo qualquer.

Aquele quadro lá fora parece clamar por um autor. A lua as vezes brinca de aparecer entre as nuvens de garoa. O cheiro de ar fresco rasga os pulmões, transpirando inspiração…

E eu tenho essa sensação de que algo incrível ainda vai acontecer. Olhando pela janela, enquanto algumas gotas escorrem na horizontal, o peito se enche de alguma vontade mesclada de impotência.

O quadro está ali. Mas eu preciso chegar ao meu destino. Eu sou destoante na cena. Uma observadora do lado de fora. Eu sou a criança que debruça no parapeito e aproveita a brisa, sem poder sair e pisar na grama molhada para brincar.

E essa sensação não vai nunca embora. Porquê?

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Sobre Almas e Metrô.

Quando eu era pequena, as vezes andava de metrô.

Eram trens antigos, que rangiam muito mais.

Eu olhava para a janela e imaginava, enquanto as coisas passavam rápido…

Que o cinza das paredes em movimento eram lápides de um cemitério, o branco das lâmpadas eram os fantasmas, as manchas pretas que passavam era os corvos e o rangido dos trilhos era o lamento das almas…

Acho que é até um pensamento legal pra uma criança de 6 anos. Hehe

Perfil

O professor deu um exercício bem interessante semana passada, para entregar hoje. Acabo de finálizá-lo, e achei tão legal que vou postar por aqui. Deve ter ficado uma droga, mas eu até gostei, hehe. Era bem simples: Os alunos teriam de fazer uma entrevista consigo mesmo. Como se montassem um perfil, mas como uma outra pessoa. Era possível inventar sua personalidade… Por exemplo, você podia escolher se entrevistar como astro do rock, presidente da república, super vilão… etc. Devo dizer que no meu caso, a influência do Douglas Adams foi quase discreta… hehe. Segue o exercício.

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Perfil – Marina Rocha Ciavatta Corrêa.

É conhecido que entre nós humanos, sempre houve a dúvida sobre existir ou não vida fora de nosso planeta. Olhamos para o céu e muitas vezes nos questionamos se afinal estamos ou não sozinhos. Tememos que um dia formas de vida alienígena venham até nós, e que sua missão não seja de paz. Porém, eu devo dizer que algo extraordinário aconteceu hoje. Todas as nossas dúvidas foram de uma vez saciadas com esta presença que hoje me acompanha: Marina Rocha. Eis que estou diante de um extraterrestre, que veio até nós, e nos concedeu uma entrevista exclusivíssima. Com muita simpatia e uma aparência muito similar a nossa própria, Marina declarou querer responder qualquer questão que possa estar nos causando curiosidade.

Repórter: Marina, de que planeta você veio?

Marina: Puxa, isso é uma pergunta um tanto abrangente. Veja, eu nunca tive uma nacionalidade, como vocês dizem. Lá em cima é bem grande, fácil de perder-se. E é isso o que faço lá, me perco sempre que posso. Já nem sequer lembro-me de onde vim, e não faço ideia de para onde vou.

R: Uau, isso é muito interessante. O quão grande é o espaço? Quero dizer, de uma visão terráquea.

M: Este planeta, comparado ao Universo é algo tão pequeno, tão ínfimo, que podemos vê-lo como uma vírgula numa multiplicação de logaritmos por razões de números infinitos. No ditado de vocês, está bem longe de ser uma agulha no palheiro. Vocês estão mais para… Um ácaro num campo de futebol.

R: Quantos anos você tem, Marina?

M: Responder a este tipo de pergunta é algo engraçado. O que vocês consideram como tempo aqui é um sistema muito relativo. O que diferencia um dia ou outro de uma galáxia que tenha mais de dois sóis e uma lua? Outros sistemas ainda mais complexos. Não sei calcular o quanto já vivi por dias e noites. É algo que deve ser calculado pela experiência de cada.

R: Certo… Então, se tudo é tão relativo, Marina seria seu verdadeiro nome?

M: Ah, claro que não (risos). Só o adquiri por que vocês aqui da Terra parecem julgar a pessoa desde sua aparência até o seu nome. Se eu viesse até aqui me apresentando como Sqw4l0w-t3rMin4tor, acho que eu não seria nada aceita. E provavelmente, nem sequer estaríamos tendo esta conversa. Mas nomes também são coisinhas bem inúteis, se você for pensar. O que te dá a individualidade não é um rótulo, e sim seu próprio conteúdo.

R: E como é viver no espaço, com tantas possibilidades e liberdade?

M: É o mesmo que viver aqui na Terra, eu creio. Sem as naves tecnológicas, a presença de oxigênio, luz e numa velocidade muito mais absurda. Mas as possibilidades e liberdade nunca mudam de um lugar para outro. O que muda tudo isto são as imposições que vocês parecem precisar para viver em paz no mesmo planeta. Se um cientista do que vocês chamam de NASA não tivesse de lidar com tantas normas, regras, impostos, burocracias e permissões, vocês provavelmente estariam com três frotas de naves de titânio pousando no solo de Anúvia 7, há duas galáxias e três quartos de cinturão daqui.

R: Você parece bem experiente em viagens desse gênero. Tem alguma que queira compartilhar conosco?

M: Acho que esta em especial. Aqui é tudo muito… Curioso e diferente.

R: O que quer dizer?

M: Bem, em todos os planetas habitados que já visitei, existiam duas ou três regras para todos, e um conhecimento amplo de muitas coisas além-estratosfera. Aqui, vocês parecem fechados em uma caixa de laboratório, em que vocês mesmos montam os labirintos, fecham caminhos e criam normas malucas. Olhar para o céu é bem mais que olhar para um monte de pontinhos brilhantes, e querer saber o que há lá em cima exige muito mais que alguns robozinhos com rodas. Mas parece que estão ocupados demais para de fato olharem para o céu.

R: Então você já esteve em outros planetas habitados. E todos são como você?

M: Ninguém nunca é como eu. Assim como eu nunca sou como ninguém. A menos é claro, que eu atravesse a barreira espaço tempo em dimensões, para dar um oi a mim mesma em algum ponto do presente ou do futuro. Mas isso geralmente causa muita confusão. Enfim, o que estou tentando dizer é que não existe uma única forma animada ou inanimada nessa imensidão que eu já tenha visto igual. Assim como eu e você.

R: E qual é o veículo que você usa para se locomover no espaço?

M: A velha pergunta não é? Que carro você tem, que roupa você usa, onde você mora… Certo, deixe-me ver. É uma nave básica, mas reajustada. Implantei recentemente um sistema de circuito temporal mais discreto, por isso o casco teve de ser reforçado com Ionita. Não é nada demais.

R: Eu não diria isso, parecem ser peças incríveis e muito difíceis de conseguir, não são?

M: Na verdade, não. Tudo nessa vida é possível de se conseguir. Seja uma promoção, achar uma moeda no asfalto, ou instalar um circuito temporal eficiente. Mas eu deveria saber que esta seria a reação quando eu falasse sobre minha nave.

R: E porquê?

M: Por que mesmo quando vocês humanos não fazem ideia do que se trata, se os rótulos forem complicados, vocês atribuem grande significância para a coisa.

R: Você está em alguma missão na Terra?

M: Na verdade, não sei dizer. Todos estão em algum tipo de missão. Até mesmo aqueles sem esperanças têm como missão o suicídio ou algo assim. Nenhum ser é inerte. Eu só estou de passagem, não pretendo ficar para qualquer tipo de experimento. Eu apenas estava admirando a paisagem, aproveitando do resto de beleza que este planeta ainda pode oferecer de natural.

R: E o que te levou a vir aqui dar uma entrevista?

M: Tédio. Veja bem, terráqueo, eu não sou um ser nobre que pretende salvar a vida de vocês ou destruí-los por algum motivo conspiratório, nem coisa parecida. Nenhum ser na verdade é tão nobre assim. Todos apenas vivem suas próprias missões, e isso as vezes impressiona um ou outro. Assim como pode parecer impressionante para você que eu dê uma entrevista.

R: Entendo. E tem algo que você queira deixar como mensagem para o nosso planeta?

M: Ah, bem, nada que já não saibam.

R: Como assim?

M: Vocês sabem que vão destruir a natureza. Sabem que vão acabar matando sua própria espécie. Sabem que essa busca maluca por dinheiro e poder é besteira. Sabem que tantas regras acabam enlouquecendo vocês. Sabem de tudo o que pode ser vital para a sobrevivência de vocês. O que não sabem, e que eu pudesse talvez falar, de nada vai adiantar.

R: E por quê não adiantaria?

M: Por que amanhã, estará em manchete, a Casa Branca vai desmentir a todos para não causar pânico, muitos estudiosos debaterão isso por anos e anos, alguns entrarão em paranoia. Talvez vocês até criem alguma religião sem sentido sobre isso. Mas a verdade é que nada vai mudar, e vocês vão continuar no mesmo passo.

R: Quando partir da Terra, o que fará?

M: Vou procurar algum lugar frio. Isto aqui está cada vez mais quente. Talvez eu vá jantar no Restaurante do Fim do Universo, ou jogar alguma coisa nos anéis de Lulapalik, há setenta e nove anos luz por hectare ao quadrado daqui. Vou continuar vivendo em função de minha própria missão. Seja ela de paz ou não.

Repórter: Então desde já eu lhe agradeço pela entrevista, Marina. E tenha uma boa viagem de volta.

Marina: Eu até teria. Uma pena que o seu governo confiscou minha nave e anda causando muitos problemas no casco dela, com essas tais bombas atômicas. Eu não queria causar tanto rebuliço por ser diferente. Mas quando essas coisas acontecem, o que tem de se fazer é sacar o laser subeta-atômico e apontar para a cabeça do líder de vocês com a ameaça de disparar uma guerra mundial. Bem, tenho de ir, tenho uma nave a recuperar e o resto do universo para explorar. Passar bem.