People Are Strange, When You’re A Stranger

Se há algo nesta vida que definitivamente me fascina cada vez mais é esse tal de destino, ou coincidência, ou como quer que chamem.

Eu chamo de acontecimentos exatos. As vezes são tão precisos que é até incômodo chamá-los de randômicos ou de simples acasos.

Oh, desculpem-me se ainda não me fiz entender. Já tratarei disso em um instante. O fato é que as coisas parecem acontecer do jeito que deviam, justamente nas horas em que não temos qualquer controle da situação. Assusta, sim, mas a graça é a surpresa da exatidão do tempo.

Nunca aconteceu de o timing de você pegar o telefone para atendê-lo fora o mesmo que um amigo teve para lhe telefonar? Ou que por distração abrisse a porta e lá estava a pessoa que você queria encontrar. Conheceu um alguém novo e quando se deu conta, percebeu que o havia conhecido na infância, mas que o tempo em que não se falaram foi o suficiente para que pudessem montar uma amizade boa no momento atual. Falou com alguém distante e dias seguintes, esbarrou com tal ser na rua. Esses esbarrões, esses tropeços, esses encontrões aparentemente Acidentais já aconteceram com todo mundo… Mas são poucos os que percebem suas singularidades.

É por isso que devo contar de alguns que já ocorreram comigo, se me permitem.

Uma vez, há um bom tempo atrás, enquanto eu voltava de avião de uma viagem do Rio, eu segurava meu ipod, enquanto me distraí e comecei a cantarolar baixinho alguma música dos Beatles. Então, este homem um tanto gordinho, cabelo ralo, branquíssimo me escutou, pois estava sentando-se do meu lado. Deu uma espiadela na tela de meu ipod, para confirmar que de fato eu escutava o que estava cantando e então me cumprimentou em inglês. Se apresentou como Sid, e era da Califórnia. Tinha um filho da minha idade e uma bela esposa. Conversamos sobre a vida, sobre música e assuntos variados. O homem no fim sorriu e disse que nunca havia conversado com o filho da maneira que estávamos conversando. Achei incrível a sinceridade do estranho comigo, e o agradeci. Já quando estávamos fora do avião, e eu procurava por minhas malas, meu amigo Sid veio até mim para cumprimentar-me uma outra vez e expressar o prazer que fora podermos ter conversado. E foi-se embora. Nunca mais eu soube do velho estrangeiro.

Há meses atrás, enquanto eu estava em um ônibus, aleatória ao universo ao meu redor por estar escutando o bom e velho rock em meu ipod, eu girava uma palheta branca dos Beatles na mão. Reparei pelo reflexo da janela que um rapaz de pé me observou de relance e sorriu. Eu, com todo meu bom humor e simpatia… Olhei pra qualquer outro lugar com o mesmo desinteresse de sempre, rs. Alguns extensos minutos depois, senti minha palheta sendo levada da minha mão e me virei preocupada. Aquela palheta branca dos Beatles era meu tesouro. E então, o rapaz do reflexo estava ali sentado do meu lado, com o mesmo sorriso no rosto, segurando minha palheta. Não entendi lhufas do que aquele maluco estava fazendo, e foi quando ele levantou uma palheta igual a minha com a outra mão no ar, mas na cor preta. Achei incrível, era muito mais legal que a minha! Depois de dar risada da brincadeira, ele me devolveu minha palheta branca e começamos a conversar sobre Beatles, acordes e Rock, e descobrimos que ambos havíamos começado a tocar violão haviam poucas semanas. Ele perguntou-me se eu ia descer no ponto em que ele precisava, mas eu só desceria três pontos para frente, e aquela foi a despedida. Cheguei em Pinheiros, no meu ponto, rindo sozinha, com a bizarra sensação de ter sido achada por um maluco de gostos similares num mundo onde eu geralmente sou o alien.

Meses depois, enquanto estou em bateria de vestibulares, exausta, deixo o edifício da Unip, onde eu tinha realizado prova para a Cásper Líbero. Distraída como sempre, na estação Tietê, comprei meu bilhete e esbarrei sem querer com uma garota de meu tamanho e idade, segurando a mesma apostila de provas que eu havia acabado de terminar. Descobrimos que prestamos ambas para o mesmo curso – Jornalismo. Trocamos informações sobre a prova e então ela apontou para minha camiseta dos Beatles e perguntou se eu iria ao Show do Paul McCartney. Sim, eu ia! Ficamos todo o trajeto de metrô conversando sobre a expectativa do show, das músicas, e da raiva contra a prova impossível que havíamos acabado de fazer. E assim, sem nem saber seu nome, viramos as costas e não nos vimos nunca mais.

Num evento que anualmente vou, o Anime Friends, fui vestida de Hippie com uma amiga. Lá, é praticamente sempre certo que você encontre gente tão louca quanto você. E pra mim, que sempre me achei particularmente deslocada, é um grande alívio, hehe. Mas nunca havia ido de Hippie e era algo que ninguém havia feito também. Levei meu violão preenchido de frases dos Beatles pintadas a mão por mim mesma. Já no evento, o primeiro que se juntou a meu grupo foi um cara meio maluco, simpático e com um sotaque engraçado, vestindo uma camiseta do Sgt. Peppers. Eis que conheço André. Andou conosco por pouco tempo, cantou e tocou algumas músicas e sumiu por todo o resto do evento. Então, enquanto eu e minha prima andamos distraídas pela praça de alimentação, eis que somos abruptamente paradas por um grupo de 4 garotos vestidos em ternos e com instrumentos de Rock Band na mão. Sim!! Eram caras fantasiados de Beatles Rock Band!! E duas Hippies!! Nem é preciso dizer que todos surtaram. E num intervalo de 5 minutos entre algumas fotos, elogios das fantasias, nos separamos. Alguns dias depois do evento, sou encontrada em minhas redes sociais por todos. Aparentemente, o maluco do André havia criado um tópico na comunidade do evento procurando por mim e minha prima e nossos contatos foram passados. E no mesmo tópico, os Beatles nos acharam. E o contato permanente fora finalmente reestabelecido. O engraçado é que, meses depois, enquanto eu fui encontrar dois dos “beatles” na Galeria do Rock, esbarrei em André. Foi de fato uma série de coincidências engraçada de se ver.

Há pouco tempo atrás, eu me encontrava na plataforma de trens no Brás, vestida como usualmente me visto, distraída como sempre. Era um dia um tanto chuvoso, mas eu estava de shorts por burrice. Um rapaz me encarava teimosamente, enquanto eu fechei minha cara numa expressão próxima ao ódio. Vendo que o insistente não se virava, percebi que o trem se aproximava e dei um passo para trás. Foi só então que olhei para o pobre infeliz e sorri. Mas é claro que foi um sorriso maléfico. Os trens, em dia de chuva, ao passarem pela plataforma soltam pequenos jatos de água em quem fica mais próximo, o que molhou o estúpido distraído com a coisa errada, e me fez rir perversamente. Satisfeita, me aproximei da entrada e reparei que um outro cara havia visto minha brincadeira maldosa e ria também. Era cabeludo, devia ter por volta de 40 anos, vestia shorts também, uma blusa branca e um colar de uma ossada miniaturizada de cabeça de boi, além de ter os membros do corpo fechados em tatuagens. Ele aproximou-se de mim e apontou para minha camiseta preta, perguntando se eu curtia The Who (essa era a estampa dela). Então o assunto fora iniciado. Citei algumas de minhas bandas preferidas além do Who, enquanto ele me mostrava tatuagens do Jim Morrison ou de álbuns do Zeppelin. Disse que morava em Tihuana, e que havia estado em São Paulo apenas para visitar a família. Ele trabalhava como Roadie para algumas bandas internacionais de Rock importantes, e no momento ele acompanhava o AC/DC. Havia bebido com Axel Rose, Eddie Vedder, estado no show do Queen, no do Police, conversado com o Ozzy… Enquanto isso eu babava na carreira do cara como um cachorro encara um frango na padaria. Minha estação havia chego e eu tive de descer do trem, sem nem sequer adquirir o contato do Roadie maluco, afinal, ele vivia em movimento. Uma pena.

O encontro relevante mais recente que tive foi na plataforma de metrô Tucuruvi, quando um rapaz loiro e pálido, de cerca de 30 anos se aproximou e apontou para a estampa em inglês de minha camiseta e me perguntou se eu falava o idioma. Respondi que sim e então o rapaz se postou do meu lado. Em sua língua estrangeira, descobri que era um budista que viera para o Brasil trabalhar com internet e montar um consultório de massagem especializada. Ele era do Canadá, na verdade, seu nome era Craig. Conversamos sobre religiões, filosofias, lugares pra se conhecer, experiências de vida… E quando ele percebeu, estava descendo 5 estações depois da sua, em minha companhia. Expliquei para o rapaz como ele poderia chegar onde desejava pelas linhas de metrô e ele pediu meu contato, pois estava passando alguns dias em São Paulo e não tinha idéia do que poderia aproveitar. Dias depois, me ligou e discutimos sobre bons filmes para ver em dias de chuva, parques a se visitar em dias de sol e ruas divertidas para curtir uma boa noite de agito. Depois, não mais tenho notícias de meu amigo canadense. Uma pena, devo dizer também.

Estes são apenas breves e recentes exemplos dos grandes esbarrões que temos na vida, com completos estranhos aleatórios, na rua, no metrô, no ônibus… Que podem mudar nossa vida, perspectiva e ânimo. Alguns deles eu não lembro o nome. Outros eu possivelmente nunca mais encontre. Mas é num desses tropeços malucos da vida que você encontra aliens similares a ti mesmo, dispostos a partilhar um pouco de seus momentos com um completo desconhecido, e se fazer lembrar de modo impactante e divertido.

Portanto, não se prive dos grandes encontros da vida. Mas não precisa procurá-los também. O Universo se encarrega em jogar as oportunidades no seu colo e trombar as marionetes por diversão.

Não sei vocês, mas eu me divirto, pelo menos. Hehe.

Curando a alma.

FIXING A HOLE – THE BEATLES
 
Estou consertando um buraco onde a chuva entra
E bloqueia minha mente de viajar
Onde ela irá.
Estou fechando as rachaduras que apareceram pela porta
E bloqueou minha mente de viajar
Onde ela irá

 

E realmente não importa se Estou errado,
Estou certo
Onde eu me enquadro estou certo,
Onde eu me enquadro
Veja as pessoas em pé ali
Que discutem e nunca vencem
E se perguntam porque nunca entram pela minha porta.

 

Estou pintando um quarto de uma maneira colorida
E quando a minha mente está viajando
Lá eu irei

 

E realmente não importa se estou errado, estou certo
Onde eu me enquadro estou certo,
Onde eu me enquadro
Pessoas tolas correm ao redor, elas me preocupam
E nunca me perguntam porque nunca passam pela minha porta.

 

Estou tirando o tempo para um monte de coisas
Que não eram importantes ontem
E eu ainda vou
Estou consertando um buraco onde a chuva entra
E bloqueia minha mente de viajar
Onde ela irá
 
 
 GETTING BETTER – THE BEATLES
Está melhorando todo o tempo
Eu me aborrecia com minha escola
Os professores que me ensinaram não eram legais
Você está deixando para baixo, me girando ao redor
Me enchendo com regras
Eu tenho que admitir que está melhorando
Um pouco melhor todo o tempo
Eu tenho que admitir que isto está melhorando
Está melhorando desde que você foi minha
Eu era homem jovem bravo
Eu escondendo minha cabeça na areia
Você deu para mim a palavra, eu finalmente ouvi
Eu estou fazendo o melhor que eu posso
Eu tenho que admitir que isto está melhorando
Um pouco melhor todo o tempo
Eu tenho que admitir que isto está melhorando
Está melhorando desde que você foi minha
Melhorando tanto o tempo todo
Está melhorando o tempo todo
Belhor, melhor, melhor
Está melhorando o tempo todo
Belhor, melhor, melhor
Eu era cruel com minha mulher e bati nela
E a mantive longe das coisas que ela amava
Cara,eu era mau mas estou mudando minha cena
E eu estou fazendo o melhor que eu posso
Eu tenho que admitir que isto está melhorando
Um pouco melhor todo o tempo
Sim, admito, está melhorando
Está melhorando desde que você foi minha
Melhorando tanto o tempo todo
Está melhorando o tempo todo
Melhor, melhor, melhor
Está melhorando o tempo todo
Melhor, melhor, melhor
Melhorando tanto o tempo todo

Mais ou menos assim…

Podia viver a vida toda assim.

Numa casinha de poucos cômodos, um jardim bonito, cheio de borboletas, libélulas e aranhas, do lado de uma mata verde.

Pegar frutas do quintal e aprender a gostar delas.

Tirar a mesa do café, acordar com sono, dormir sem ele.

Escutar boa música, ver o sol, ver a chuva.

Ter companhia, silêncio, risada, bobeira.

Uma saia comprida, um relógio antigo, um bom livro.

Uma corrida de cavalo, uma cidade pequena.

Rolar na grama com os cães, falar bobagens sem sentido.

Tocar qualquer coisa no violão, sentar na varanda por horas, balançar na rede por outras.

Não ter ideia de que horas são ou que dia estou.

Saber das coisas só olhando pro céu.

E arranjando tempo pra escrever o que dá na telha.

Mais ou menos assim…

I don’t belong here, and you know that.

Fases são coisinhas engraçadas mesmo, estive pensando.

Não engraçadas do tipo hilárias, mas hilárias do tipo bizarras e espertas, que podem deixar coisas engraçadas no seu rastro, e em você.

As coisas na vida acontecem, sabe? As desgraças e tudo o mais, como já dizia aquele velho sábio, o gordinho. Buda, se não me engano. Hehe.

E quando você é mais novo, você sempre anda ansioso por ser mais velho e viver coisas melhores.

Mas a gente percebe quando cresce que quer ser criança pra sempre, e foi uma puta estupidez a Wendy não ter ficado na Terra do Nunca e escolhido crescer. Criança ingênua.

Minha infância deixa saudade. Teve desgraças, sempre tem. Aquele braço quebrado, aquele menino que arrasou seu coração pela primeira vez, as primeiras travessuras com pólvora… A separação dos pais, as brigas e tudo o mais. Mas tem suas horas de ouro. Os riachos, as gargalhadas, os pique-pegas, luta de espadas samurai de bambu em cima do estrado da cama, joguinhos de computador, programas velhos de televisão, desenhos animados, vontades de ser superespião e cantora internacional.

Passou.

Como aquele vento que passa pelo cabelo numa tarde bonita, em que aproveita ansiosa pelo pôd do sol, e quando anoitece, a coisa meio que perde o sentido aos poucos, até esperar o sol voltar na manhã seguinte. Passou.

Cada fase tem sua importância. Cada passo leva um pouco mais pra frente. As vezes leva pro lado, as vezes leva pra trás, mas sempre te tira do lugar, remove a poeira, estimula os músculos do corpo e o faz pensar em pra onde o novo passo deve te levar.

Como a Wendy, ando ansiosa por crescer. Sei o quanto fui tola em deixar a infância cheia de vontade de virar adolescente. E então, uma “jovem adulta”. E logo mais, adulta de verdade, de acordo com a lei, o tempo humano e todos esses protocolos idiotas. Mas eu sei que a aventura está lá fora. Em algum lugar.

E quando eu perceber… Ela vai ter passado.

E eu vou estar de novo esperando o sol aparecer. Num novo dia e numa nova fase.

Dá medo, né?

To Find Me I Have To Lose Myself.

O cursor pisca de várias formas. As vezes pra distrair o cérebro com uma contagem sincronizada do que você não tem nada pra dizer… As vezes, é um inquisitor, uma cobrança do monitor em branco pra sua falta de pensamento e receio da escrita. Enfim, nada que importe. É preciso estar realmente inseguro para deixar-se flexionar pelo maldito cursor.

Lá fora chove. Como chove no mundo. E morre, como morre no mundo. Alaga, claro que alaga, sabe? O ser humano é burro que se afoga nele mesmo, já viu?

Se pergunto muito, é mania que querer auto afirmação. Estupidez qualquer, como muitas outras bobeiras. Muitas vezes me perco entre o que penso e o que quero dizer, e acabo suspirando e afogando o pensamento. Eu disse, o ser humano é burro assim mesmo. E se afoga desse jeito.

Eu só senti vontade de escrever. E percebi que o cursor cedeu ao meu dedilhar, como se tivesse uma arma apontada para sua cabeça achatada e obediente. Uma caneta ofereceria mais resistência, se quer saber. Mas eu não resistira a expor algumas bobeiras. Estupidez qualquer, como sempre.

E lá fora continua chovendo. Morrendo… Pensando e afogando. Aqui dentro?

O cursor corre e a insegurança escorre aos poucos pela vidraça da minha janela.

Percebo agora que as vezes quando ando meio perdida, o que sinto é apenas o momento. E as vezes, um cursor piscando no monitor em branco.

Coisas com nomes. E uma tal de vida…

Tem quem chame de inspiração. Outros chamam de amor. De respiração. De raio de sol, gota de chuva, luz do luar, estrela. Pode chamar de nuvem, de vento. Chame de satisfação.

Tem quem chame de Deus, Alá. Chame de harmonia, fôlego, perfeição.

 Outros chamam de perda de tempo, talento, dinheiro, que seja…

Chame como bem quiser.

Eu chamo de sentido da vida.

Chamo de felicidade plena.

Chamo de natureza.

Chamo de momentos, espalhados pelas folhas, sorrisos, companhias, descobertas…

E essa tal de vida.

No fim das contas, não existe um nome certo. Impressões e sentimentos mudam no olhar de cada um que vê. São só nomes dados por alguém que precisava dar nome a várias coisas. Mas não muda o fato de tudo ser apenas uma coisa só.

Uma grande bola verde azulada flutuando num espaço negro e estrelado.

Com uma lua, um sol, e vários planetinhas.

Com vários animais, pessoinhas… E uma garota sentada numa varanda, olhando pra natureza e passando seu tempo colocando nome em coisas e sentimentos…

Olhando pra natureza.

Tendo um surto bobo de “inspiração” e teclando sobre vida.

Irônico, não?

Mas e você? Como chama?

Da noite pro dia.

Sem retrospectivas. Sem memórias rebuscadas. Sem complexidades. Por enquanto, talvez.

Tentei de todo modo descrever esse ano, como vi tantos outros fazerem, mas não é algo que consigo fazer tão facilmente.

Foi incrível, foi indescritível, e por isso, dispensa quaisquer descrições, qualquer tentativa de passar pro monitor sentimentos intransponíveis, acontecimentos extraordinários e situações inimagináveis.

Desisti então de qualquer pensamento que exigisse demais de meu bem-estar mental e físico, e deixei-me levar pelas cenas que me arrastavam na vida.

Fui passar a virada do ano com meus tios e primos, o que foi extremamente agradável e compensador.

Tínhamos Vox online conosco, depois de um bem feito churrasco, já na sala, assitindo ao DVD do 360º do U2. Ela aprontava-se para uma festa lá no outro continente, enquanto aqui no nosso, já contávamos os minutos para a virada da noite. E foi então que meu tio disse: É nessas horas que você percebe a asneira que é contar as coisas pelo tempo, pelas horas. Nós aqui já começando a escutar os fogos e você, Vox, só vai comemorar a mesma coisa daqui a três horas.

Bateu a meia noite, tomei os primos no embalo, e fomos ao telhado, para ver o espetáculo de fogos. Ficamos todos ali: eu, lubs, Harry, Petit, Sunshine, Pete e Rub, deslumbrados com aquele céu cintilante e multicolorido de um espetáculo que rompia de todos os arredores. O motivo é tolo, e todos sabemos, mas temos de admitir que a diversão pelo fogaréu é excitante. Um a um, foram descendo do telhado, deixando-me a sós com lubs. Ouvíamos Beatles e Marley em meu celular, olhando os resquícios dos raios vermelhos, verdes e amarelados cruzarem alguns pontos distantes no céu.

Ela então desceu dali e eu fiquei sozinha, deitada, olhando as nuvens se moverem pela noite, acompanhada de Joplin, Pink Floyd e Zeppelin. Tentei organizar os pensamentos mais uma vez junto aos acontecimentos do meu ano… mas tudo o que eu conseguia ter em mente eram as nuvens em movimento e a melodia de Let The Sun Shine – 5th Dimension tomando meus ouvidos. Percebi então que eu havia mudado incrivelmente aquele ano. Não só de aparência, mas de pensamento, comportamento… de coração.

Fiquei maior, mais ciente, um tanto menos tolerante, um tanto mais mente aberta, muito mais rebelde, largamente crítica, até mais depressiva, mas também, mais espontânea e leve. Mudei opiniões, voltei-as, moldei-as, mudei outra vez, cultivei sentimentos maiores, alegrias impensáveis, tristezas também. Tive em mim o extremo de tudo o que nunca imaginei poder ter, e um tanto mais, e muito menos…

Lembro de que li que medir mudanças por tempo de anos é ridículo, é só uma idiota medição de tempo que alguém decidiu estabelece. Pois mudei muito mais no decorrer dos meses que numa virada de noite qualquer, dum tal de dia 31 pro dia 01 de 2011.

Foi então que levei uma bolada na testa. Harry subiu no telhado atrás da bola de vôlei, rindo de mim. Sentou do meu lado, e ficou ali me escutando cantar as melodias que vinham sem fim, as vezes batucando no ritmo pra acompanhar.

– Você é meu anti-social preferido, sabe? – E eu dei risada.

Ele fez algo como uma careta, soltou um “Oown” e continuou batucando e me mandando mudar de músicas.

– Vamos andar de bicicleta? – Ele sugeriu, e eu, nada boba, levantei rápida e descemos dali.

Passamos a próxima hora da madrigada, eu, lubs e Harry rodando pelas ruas desertas, ainda acompanhados de Beatles, Doors e Police, como os reis do mundo. Sentindo o vento da madrugada batendo forte no rosto, as folhas das árvores roçarem nas mãos, uivando a todo pulmão, como malucos, rindo e escutando o eco das risadas entre as sombras dos postes de luz nas ruas abandonadas.

Encerro minha noite sentindo-me da mesma forma como pude me sentir naquele telhado, naquela bicicleta, aproveitando minha noite com dois de meus melhores acompanhantes em todo meu tempo de vida. Aqueles que mais me viram mudar e me tornar o que sou…

Sem a idiotice de uma “virada de ano”. E sim, pela vida experimentada.

Uivando a todo pulmão.

E olhando pras nuvens no céu… Tão inconstantes como sempre fui e ei de ser.

Ah, claro. Um bom “2011” pra você também. Ou que seja… rs