Evolução

Redação meio instantânea, escrevendo pra me distrair no meio da aula. Professora pediu para que eu passasse a limpo e mandasse a ela. Pois bem, sendo feito.

Na passagem da vida, soprava o leviano vento. Vinha do Norte, juntava-se ao Sul, encontrando-se a leste, vasculhando o oeste. O Vento, curioso, revolto, abusado, levava histórias, entregava lágrimas, esticava-se no som, girava os moinhos, acariciava os pastos, chicoteava as casas, afugentava pragas, propagava o mundo de cinzas e pureza.

Ventava uma vez, numa remota fenda em grutas esquecidas, onde descobriu o Tempo. Não o conhecia, não o sentia, não lhe dava importância. Era um velho disforme, de olhar jovial e espírito confuso. Seus gestos, además de sua idade, eram planejados e inteligentes. Não acreditava no acaso, mas não largava mão da amizade do Destino. “És tão envolvente”, dizia-lhe o velho”.

O desprendido vento, tão veloz e inconsequente, entristeceu-se de repente.

“Que afliges o espírito” perguntava o velho sábio.

“Não lamentas? Estás velho, és enclausurado. Vê-se nos olhos tua vontade de vida, teu tempo infindado. Quê te adianta? Não tocas as maravilhas, não sentes os calores, não presencias os humanos, animais ou natureza…”

No profundo olhar, o Tempo pronuncia-se. “Achas que por quê o Vento não me sentes, que não existo? Mas sou o Deus do mundo e o pai da evolução. Sou o grande criador, inventor, procriador e amante. Desenvolvo a vida, e então, a tomo para outros. Os humanos sentem-me no corpo, na mente, no esírito e coração. Eu sou o Universo, e ele todo és quem sou”. O Vento não acreditava, leviano como era, que aquela deplorável criatura numa fenda fosse tão absoluta.  “Abaixo da Terra, ou mesmo a seu redor, sou, fui e serei ainda mais essencial que ti”, concluiu o velho.

“Sem mim, a vida se vai, ainda assim” o Vento inflou-se de importância.

“Antes de ti, criei a vida e sem ti, dei-lhe os primórdios. És um caprinho da Natureza nova deste planeta, onde não existe além daqui”.

Sentindo-se enfim submetido, reconheceu o Tempo como Senhor da existência. Mas havia algo. “Se és tão soberano, que fazes isolado nesta fenda, enquanto sou livre e viajo pelos continentes?”.

“Escondo-me. Os humanos, meu maior trunfo, enfadonham-se de mim e matam-se em campos áridos, ainda jovens. Os que perduram a mim, cultivam novas formas de matar-me. Querem imortalidade, saltam dos limites. E se não guerreiam, vivem em vão, gastando-me atrás de luxúria, falsos propósitos e hipocrisisas, até debilitarem-se e suplicarem a mim permissão para mais. Tenho vergonha… Por isso, torno-me fenda”.

Perplexo, o Vento deixa a gruta numa baixa brisa confusa, e entende a primeira vez a Sabedoria. Toca a Natureza e escuta-a ferida. Sopra em desertos que um dia foram mares e escuta pelo globo explosões nucleares. Engasga-se numa nuvem escurecida de dióxido poluente e agentes corrosivos de si. Ao sentir-se tão doente, baixa-se de altura e diminui-se. Sente então o rosto de cansados seres vestidos em terno novo. Ignoram sua presença, desrespeitam-na! Sopra pelos olhos molhados de uma moça surrada, levando-lhes as lágrimas e a dor aos poucos. Por fim, entrou desnorteado numa fenda de concreto, um beco, e ali leva o ruído da arma certeira de um imundo ao peito de outro igual.

A agonia, a indiferença, a ousadia, o cansaço, a dor e o sangue deixam-no pesado e mais pesado. A corrente do Vento encontra-se sufocada. É preciso expandir… É preciso acabar com o sofrimento! É preciso acelerar e ir. É preciso destruir. O Vento atordoado, já não mais leviano, carregado, torna-se furacão, derruba casas e edifícios, furioso tufão. Livra de si e espalha por aí toda a maldade que antes coletara. Outra vez leve, acalma-se e passa. Deixa para trás escombros e choros.

O problema fora-se e tornara-se consequência. A ganância e dor tornaram-se ruína. Sobra poucos desafortunados para tomarem a cena como lição. Mal sabia o ingênuo vento que o humano endurece o coração. O Tempo, velho envergonhado, torna-se inimigo e aliado.

Maiores prédios surgem, novas armas criam-se e até o fim, o tornado de angústia gira, cada vez mais embalado de veneno, reflexo da sociedade, arrasando cidades. Até que nada mais sobre. Nem humanos, nem Sabedoria, nem Destino, nem Natureza, nem vento. Só tempo…

Infindo, velho e enclausurado.

Marina Rocha

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