Happiness is a Warm Gun

A garota usava um colete de couro desgastado de franjas por cima da bata branca de mangas compridas e largas. O cabelo solto, cacheado, estava preso por uma faixa de crochê. A calça jeans completamente rasgada exibia por baixo sandálias amarradas aos tornozelos. O olhar estava oculto por óculos redondos escuros, acima de um sorriso simpático. Seu nome variava. Chamavam-na de Lucy, Jude, Sadie, Martha… Era o tipo de garota que passava na rua levando olhares estranhos, mas gentis, por sua fama de boa moça. Era divertida, tocava violão com as crianças na praça no fim da tarde e tecia colchas com as senhoras do abrigo aos domingos. Trabalhava na livraria, como uma boa trabalhadora tem de ser. Era amigável e sociável, como uma boa pessoa tem de ser. E sempre dizia que procurava pelo homem certo, como toa boa mulher tem de procurar. As luzes da casa eram apagadas cedo de noite, para não incomodar os vizinhos. Mas ninguém a conhecia de verdade.

Lá fora se fazia noite… E ela bem sabia disto. Era a hora de despir as flores do corpo e tomar para si o seu fardo. A garota jogou a fantasia da paz e amor ao chão e subiu pelas pernas a meia arrastão. Fechou o sobretudo preto sobre o corpo feroz e delineou os lábios antes sorridentes de batom vermelho vivo. Apanhou o livro “O Apanhador no Campo de Centeio” e o depositou no bolso interno do sobretudo. Era sua missão de vida, verdadeiramente. Do alto do armário, tirou o ápice de sua noite. Seu revólver calibre 38, comprado de um amigo na Georgia há tempos atrás. Calçou as botas de couro plastificado até as canelas e tirou de si a peruca cacheada, livrando os cabelos curtos, lisos e negros-ébano pelo pescoço.

Contou 5 balas, beijando a cada com o batom, e carregando a arma, meteu-a pelo sobretudo. Saiu pela noite, pisando fundo e elegante passo ante passo. O clube The Cavern Club brilhava com fortes neóns sobre a porta revestida de camurça. Era seu palco perfeito e predileto. Era de onde inspirava do melhor cheiro de caça. New York estava fria aquela noite, como esteve tantas outras em que presenciou a dama de lábios vermelhas solta pelas ruas. Ao vê-la, o segurança liberou-lhe. Já era da casa, mesmo que sempre se mantesse discreta. Era uma impressão momentânea. Uma sombra passageira. A presença que mantinha era forte, e quando se ia, levava-a embora. Ninguém lhe sabia seu nome ou qualquer informação. Chamavam-na de nomes mirabolantes como Red Lips, ou Black Lady… ou não chamavam-na. Simplesmente não viam a moça passar.

O saguão era um tanto fazio, algumas mesas de sinuca, um bar apagado e alguns poucos jovens espalhados pelos cantos. Uma seta apontava para uma grande escada de ferro vermelho, que levava ao subsolo. Era ali que descia ao inferno. No salão inferior, a fumaça carregava o ambiente pouco espelhado, de luzes escuras e mal-direcionadas, as paredes de pedra úmida e um palco no fim do cômodo, onde uma banda de Rock Alternativo arranhava guitarras e teclados. O baixo se pronunciava mais que os outros instrumentos, mas podia-se jurar que a guitarra gemeu alto na frente da sombra de lábios vermelhos. Ela fixou-se numa mesa ao canto de frente ao palco. Fitava exatamente o baixista que arriscava o back vocal. Ele não era tão alto, mas não era baixo… Tinha os cabelos até quase os ombros e usava óculos escuros redondos um pouco abaixo do olhar. Usava roupas de panos leves e que pareciam surrados, enquanto balançava o antigo baixo para frente e para trás. Não se demorou para enxergar a mulher de cabelos curtos da mesa da frente. 3 segundos e um contato visual forte, foi o que bastou. Ela sabia, ele sabia. Que se encontrariam depois do show. Enquanto esperavam ansiosos o encontro desconhecido, as garotas da primeira fileira deliravam ao som do rock da banda. Era relativamente famosa, a ponto de ter o holofote central do concorridíssimo clube. 

Algumas músicas depois, o show é finalizado, a banda ovacionada sai de cena e deixa as luzes do palco focalizarem os instrumentos abandonados. Ela dirigiu-se aos fundos, pela porta dos bastidores, até ficar oculta pela sombra dos equipamentos. Mas ele a vira. Não a perdera de vista desde o momento em que a focara. Tornou-se parte do negro esconderijo da dama que lhe sorria. Alguns minutos, talvez um pouco mais do que o necessário, foram passados. Nenhum som se ouvira da fresta escura. Nenhum movimento se vira. Apenas distinguia-se o reflexo fosco do batom vermelho da jovem. 5 pequenos estalidos. Novas marcas pelo corpo do rapaz. O líquido fundia-se com a cor da maquiagem. A garota levou o sangue e deixou o corpo, com 5 buracos espalhados pelas costas. Era sua assinatura. E sua sede, sua caçada, e sua missão estavam finalizadas.

Voltou para casa no mesmo passo, escutando atrás de si passos apressados. Mas não temeu. Sabia que da sombra, ninguém acharia a vítima tão cedo. Seu caminhar permanecia firme e elegante até a porta dos fundos de sua casa esquecida. Despiu-se da alcunha sombria, ateou fogo à roupa e ao livro. No dia seguinte, traria outro do mesmo para casa. Encobriu-se da madrugada pelo edredom frio e adormeceu satisfeita consigo.

Acordaria no dia seguinte como sempre acordou. Disposta, sorridente, de longos cachos feitos em trança, jeans rasgado e um broche de John Lennon do colete desgastado. No jornal matinal, antes de sair para cumprir seu doce dever com a sociedade, escutaria a notícia rotineira… “Ontem, dia 8, mais uma vez o assassino que revive Chapman fez uma vítima. O baixista da banda é encontrado morto no clube que antes foram encontrados vestígios de outras vítimas…” e por assim em diante. Aquilo não lhe interessava. Calculava o novo furto do livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, após o intervalo de seu trabalho, um pouco antes de poder ir tocar violão com as crianças. E se fazia certeza no espelho de que não sobravam vestígios rubros de quem fora, ou de quem seria.

Autoria Própria

Escutando Happiness is a Warm Gun – The Beatles

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