Sobre a Vida, a Morte, Sobre Você, Eu.

Sobre a Vida

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?

Por Charles Chaplin

Sobre a Morte

A morte, por si só, é uma piada pronta. 
Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada, 
está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem,
precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no
carro e no meio da tarde morre. Como assim? 
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? 
Não sei de onde tiraram esta idéia:
MORRER!!!
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio
estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve
lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física,
quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para
estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer
da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora
de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente… 
De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, 
numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis.
Qual é? 
Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, 
sem ter dançado com a garota mais linda, 
sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. 
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e
penduradas também algumas contas. 
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, 
a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. 
Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. 
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, 
caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, 
começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte
costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. 
Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o
sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não
acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase
nada guardado nas gavetas.
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão, 
desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. 
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Por Robson Degan

 

Ora se vivo,

Ora se morro…

Onde está tal tênue diferença?

Onde está tamanha significância?

Neste abismo de mundo, de vidas, de relevâncias…

Senão propriamente em mim.

Na minha vida.

E na minha morte.

Efêmera e óbvia. Distante e oculta.

Por Marina Rocha

 

– Você coleciona um monte de bugigangas – disse finalmente.

– Bugigangas, não. Imagine quantos séculos de história estão guardados nesta sala. Eu não chamaria isto de bugiganga.

– Por acaso você é dono de uma loja de Antiguidades?

O rosto de Alberto assumiu uma expressão de desapontamento.

– Nem todos são capazes de simplesmente se deixar levar pelo fluxo da história, Sofia. Alguns precisam para e recolher o que foi ficando pelas margens do rio.

– Que forma estranha de se expressar!

– Mas é verdade, minha cara. Não vivemos apenas em nosso próprio tempo. Carregamos conosco também a nossa história. Não se esqueça de que tudo o que você está vendo hoje aqui já foi novinho em folha um dia. Esta boneca de madeira do século XVI, por exemplo, talvez tenha sido feita para a festa de quinze anos de uma garota. E talvez tenha sido feita por seu avô já bem velho… Depois a garota virou uma adolescente, cresceu e se cansou. E talvez ela própria tenha tido uma filha, que herdou esta boneca. Depois ela foi ficando velha, até que deixou de existir. É possível que ela tenha vivido uma longa vida, mas agora, não existe mais. E nunca mais vai voltar. No fundo, ela apenas fez uma breve visita à Terra. Sua boneca, porém… Está bem sentadinha ali na estante.

– Falando desse jeito, tudo ganha um ar triste e solene.

– Mas a vida é triste e solene. Somos deixados num mundo maravilhoso, encontramo-nos aqui com outras pessoas, somos apresentados uns aos outros e caminhamos juntos durante algum tempo. Depois nos separamos e desaparecemos tão rápida e inexplicavelmente quanto surgimos.

Jostein Gaarder – O Mundo de Sofia

Agora diga-me você o quanto se vê. O quanto me vê… E a vida que planejou.

A vida que leva nas costas, sua história, seus planos… São aqueles que queres selar junto ao túmulo do tempo?

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