While He Gently Weeps

Lá fora, se faz noite.

Falando estou, sem claridades de dúvidas, de dentro de um pútrido clube fantasma, encravado no seio de uma das milhões de ruas nuas e pálidas da cidade de New York, numa época em que a poeira da guerra ainda cobria o rosto de jovens esparramados pelos campos do Vietnã.

Não diria que pouco importava a época, nem o lugar, ou o cheiro e a sensação de um dejavú constante, de escuridão em escuridão, de olhar em olhar, de acorde em acorde.

Oh, música. Consegue escutá-la?

Lá está ele, sentado naquele canto mal-iluminado por uma única lâmpada falha, onde alguns perdidos reuniam-se a cada dia mais, diminuindo e aumentando seu êxtase em porções ínfimas e inumanas. Lá está ele, arranhando aquela velha Gibson vermelha mais uma vez, em seu próprio desespero. Enquanto ele decompõe-se naquele banquete torto, os olhares oscilam. As moças aprumam-se. Os rapazes levantam-se do fundo do bar. E ele começa seu show particular.

Um solo, que é para sentir-se íntimo aos poucos com a velha companheira, a única que não lhe deixara, e que entendia seu pranto como ninguém que não restara vivo. Dedilha pelo braço estendido da amante fatal as últimas notas de sua breve introdução, que tratava-se de um caso incurável de encurtar histórias melancólicas. Lá menor. Menor, menor. Notas tristes que ele procurava transparecer, compartilhando com a garota em seu colo tudo que seu coração tinha a oferecer. A música, todos na platéia fantasma conheciam. Todos conheciam a mesma dor, eram almas de si abandonadas, sem corpo, sem rosto, sem cor. Só almas, respiração, odor. Ele roçou a voz rouca na garganta cansada. Era a hora de subverter-se de uma vez ao puro som da dor, do amor e dos acordes menores. Sol, Dó, Mi. A melodia tomava vida no antro de cadáveres…

“Eu olho para todos vocês, e vejo o amor adormecido…”

E a guitarra, fê-la chorar.

“Eu olho para o chão e percebo que precisa ser limpo…”

Mais uma vez, contorce as lágrimas da garota submissa. E ela chora sem hesitar. Mais algumas notas… mais algumas gotas.

“Não sei porquê ninguém lhe disse como desdobrar seu amor…”

E sua cabeça baixa, sua voz encolhida, encostou-se de lado no ombro surrado, o chapéu caindo-lhe de lado, os óculos escuros sem propósitos, escondendo-lhes do mundo aquele olhar arrasado. Acariciou sua garota mais uma vez.

“Eu não sei como alguém controlou você. Eles te compraram e te venderam…”

Algumas das moças da platéia largaram-se sobre longos goles, e puseram-se a seguir a melodia que lhes cabia. Mas ele sabia que elas nada entenderiam de si, ou de seu solitário pranto. Ela se fora. Vendida, comprada. Brincava com a vestimenta vermelha da mulher que ficara pra consolá-lo.

“Eu olho para o mundo e percebo que está girando…”

E enquanto isso, sua guitarra chorava gentilmente.

Um soldado deixado para trás. Um covarde sem ninguém para se lamentar. Um homem sem um amor para se deitar. Um soldado que deixou para trás, que lamentou-se sozinho, que perdeu-se no amor perdido.

“Com cada erro, devemos certamente aprender… Enquanto a minha quitarra…”

Chorava gentilmente. As vozes pelo clube escuro já não se distinguiam. Formavam como uma, num tom quente, vazio, acompanhando a mulher de vermelho fatal. Aquelas vozes entoando no cobiçado tom que lhe custara tanto o incomodavam. Como podiam estar presentes? Como podiam estar dando-lhe ouvidos? Quem estava lá?

A escuridão lhe respondia em baixos lamentos, alguns aclamando pelo próximo entoar de um mantra gasto. Seus dedos então cobiçaram o esguio corpo da moça, e lhe percorreram sem dó. Só menores. De alto a baixo, aquilo apurava-lhe o interior quebradiço, e mostrava-lhe o que ele não podia ver. Sentia o vibrar das notas e sabia que ela não lhe deixaria na mão. Ouviu então o velho piano do outro lado começar um lamento baixo, nas mesmas curvas que a sua menina. Ouviu um sax tímido e melancólico desabotoar nos fundos de algum lugar, e pôde saber quem lhe acompanhava. As almas lamentavam e ele podia escutá-las. E lá estava ele, fazendo jus a tudo que não possuía. Não mais.

“Eu não sei como você foi divertida…”

Desta vez, fora o fantasma do piano que puxara a dor da voz. O velho percebeu que o rapaz sofrera da mesma maldição. Apaixonado por alguém que lhe fora comprada. E então, o baixo começou algumas poucas notas, batidas. Ele podia senti-lo perto de si.

“Você foi pervertida também…”

O novo integrante respondeu o pianista com uma voz fina, rouca e melódica. A garota parecia açoitar o pesado violoncelo. Os lamentos juntavam-se em um unísono baixo, por trás dos acordes da Gibson.

“Eu não sei como você foi invertido… Ninguém o avisou…”

A baixa audição do velho guitarrista levou-o a batidas rítmicas de granadas usadas, de pólvora seca, de brasa. Vermelho. Era a única cor que vislumbrara antes da escuridão. Da cor do contorno da amante que carregava nas coxas naquele instante.

Ele tomou a voz pela goela uma última vez, antes de maltratar suas mãos nas cordas enferrujadas da Gibson, secas em seu sangue inexistente.

“Eu olho para todos vocês e vejo o amor que está adormecido…”

E algumas lágrimas escorreram detrás dos óculos escuros, por debaixo de seu chapéu caixo, de suas roupas poídas, de suas pupilas opacas.

Tudo acontecia, e sua guitarra ainda chorava gentilmente.

 

(escutando While My Guitar Gently Weeps – The Beatles)

Autoria Própria

Anúncios

Uma resposta para “While He Gently Weeps

  1. Tô com medo do c (risos)

    “When i was young i was invincible,
    I find myself now thinking twice,
    I never thought about no future,
    Its just the roll of the dice.

    But the day may come when you’ve got something to lose,
    And just when you think you’re done paying dues
    And you say to yourself, dear god what have i done?
    And hope its not too late ‘cause tomorrow may never come.

    Reach for the sky, ‘cause tomorrow may never come”

    (Trecho da música Reach For The Sky do Social Distortion)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s