For What It’s Worth

Lá fora, se faz noite.

Porém, já não sei divergir mais o diurno do noturno. Me perdi em algum lugar entre as 3 da manhã e algum canto do quarto. Não saberia também lhe dizer em que ponteiro do tempo estou. Há muito, perdi essa noção inútil da conta dos meus dias. Conto meus cigarros, meus copos vazios, se lhe ajudar em algo. Ajudam a mim. Conto as marcas escuras na minha pele. Conto os buracos do assoalho desfeito. As gotas de sangue na pia branca do banheiro. Nas folhas amareladas da escrivaninha. Nos guardanapos do lixo que não me desfaço. Nas olheiras adornando meus olhos fundos e opacos.

Não tenho certeza se escuto meu coração bombear sangue pelo meu corpo. As vezes, tenho quase certeza que cansou-se de mim e se aquietou. E então, inalo o ar pesado do cômodo escuro e sei que vivo mais uma vez. Que morro mais uma vez. Só não sei concluir quem é mais estúpido. O coração, que não desiste da minha causa, ou eu, que não desisto disso.

Os remédios jogados na pia, esparramados e misturados, tomados aleatóriamente, quando sinto fome ou sede, parecem não surtir o efeito que me foi oferecido. Onde está a melhora em 3 sessões? O canal respiratório limpo? O estômago calmo? A atenção aguçada?

Talvez eu o saiba. Saiba onde estão todas as maravilhas que preciso, apresentadas a mim em drágeas bicolores, drogas potentes e, consequentemente, inúteis. Estão do lado de fora da janela, no mar de luzes que as vezes ouso admirar. No roçar do vento fresco, como a respiração ofegante de uma amante que logo se vai. Talvez esteja na vontade de viver, que eu faço questão de negar cada vez que sinto o fogo do cigarro queimando meus lábios. Que sinto o quente da bebida me distanciar do gélido cômodo abandonado pelo mundo.

É o único que me acolhe. Que me deixa ser livre e engarrafado como eu sempre desejei. Desaparecido ou morto. Doente e desamparado. Do jeito que escolhi. Como quero que permaneça. Até que este coração estúpido também conclua que de nada valho, e que deveria estar apodrecendo em alguma vala. Se não valho o ar que respiro, como você disse ou já pensou, aqui estou, respirando a fumaça pesada de meu tabaco, de janelas fechadas, renegando o oxigênio. Se não valho a comida que como, como você disse, cá estou alimentando-me de minha sanidade, de poeira e pílulas. Se não valho a água que levo a boca, como você disse, agracio-me no líquido amarelado e ardente que me acolhe, e me leva pra longe de você. Se não valho nada, como você me gritou, me sussurrou nos lençóis e escreveu na minha pele, cá estou eu, renegando meu próprio coração. E morrendo.

Porquê eu escolhi, e não porquê você quis. Porquê eu quero. Porque já pensei de tudo e já sorri demais. Porquê já amei e fui amado, e já ajudei a quem precisava.

E isso passou. E me esqueceram. Me esqueceu. Abandonaram-me aqui neste canto pútrido de mim mesmo, perdido do tempo, do sol, do ar ou da razão. E eu os esqueci. Fiz questão de fazê-lo. E não faço mais a mesma questão de levantar.

Falho as vezes comigo mesmo, como agora, como já falhei. Lembro-me do que fui, do que deixei, de você, dos outros. Não sei mais seus rostos. Nem suas sombras. Mas lembro. E morro.

Mais uma vez eu morro.

Respiro. Mais uma vez, sei que permaneço vivo. Um carrasco de mim mesmo, um insano sem cura, um poltergeister desgastado.

Pelas luzes no velho assoalho, eu sei que é noite. Os reflexos das luminárias no quarto vazio são as estrelas que me agraciam. Aquelas do céu se apagaram.

Ofuscam-se. Apagam uma de cada vez, agora.

Puxo um cigarro negro, tomo um gole vermelho. Torno-me parte da escuridão. E então, um som.

Um baque definitivo, forte, imponente. Uma batida do meu coração. Duas três. Falta de ar. Um copo quebrado. O álcool no chão, onde ajoelho-me em desespero. A brasa do meu vício. Deito-me, sei que devo partir e abraço o cheiro da maldita que vem me receber. É ela. É você.

Sinto o calor. Sei que ele me consome. E o coração pára.

Mas eu sei que a cidade lá fora não para.

E que este meu corpo não será lembrado por ninguém.

Eu escolhi isso.

E foi por isso que vivi.

(escutando Muse – Ruled by Secrecy)

Autoria Própria

Uma resposta para “For What It’s Worth

  1. Há quem diga que para se criar a mitologia de um artista, é preciso resumi-lo a sua obra simplesmente, porque assim ele o faz. Se não a conhecesse relativamente bem, diria que estou diante de uma artista em potencial, mas como posso em partes vislumbrar a circunstancias em que a obra foi concebida, digo que és uma artista em fase de aprimoramento. A maestria em que regeu as palavras nesse conto me impressionam pelas metáforas que o compõem, a sua inspiração foi expressa como quem divaga da loucura a racionalidade da imaginação criativa. Meus parabéns.

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