Rabisco o sol que a chuva apagou.

As vezes, insisto em não entender quando afirmam que meros detalhes, não fazem nenhuma diferença. Claro que, como para tudo que suspira nesse mundo, há casos e casos. E este é um dos que fazem sim diferença.

Ando na rua, no caminho de volta para minha casa. Itaberaba City, como sempre, decorada de um cinza pesado e asfixiante. Os ônibus que vem e vão, as pessoas que passam, desviando seus olhares, alheios, preocupados. O tempo fechado, o ânimo arrastado e mórbido de um dia cansativo e desperdiçado. Problemas, problemas, desânimo, cabeça baixa. Eu tentava focar na música com acordes de uma guitarra que parecia lamentar. Focar no All-Star desgastado do asfalto irregular. A música mudou, um carro buzinou na esquiva adiante e eu ergui a cabeça. Ali, tímida no céu cinzento de um dia melancólico, estava uma fresta de céu azul cerúleo, raios de sol aninhando-se nas bordas de nuvens que se esbranquiçavam, contrastando com todo o tom apagado. Ali, no meio daquela poluição, daquelas nuvens indiferentes, o sol procurava brilhar. Ele ainda estava ali em cima, pendurado no céu azul. O dia, em cima daquilo tudo, ainda reinava brilhante. E eu percebi sorrir. Ali, naquela fresta, eu percebi abrir um sorriso. Algumas pessoas olharam pra onde eu olhava, interessadas, mas logo voltavam a alguma outra distração.

Era uma noite da semana. Eu passava mal, enquanto minha mãe e meu namorado estavam nos bancos da frente do carro. Ele segurava minha mão. Eu ardia por dentro, uma agonia crescente, e algumas pontadas de dor. Por baixo. Sorrateira. Passamos algumas horas na fila de espera, na sala de espera, e finalmente no consultório. “Faça o pedido do exame de urina, e volte com o resultado mais tarde. Ainda não tem idade pra isso, mas pode ser indício de pedra, ou só uma infecção mesmo”. 6 copos de água. 3 horas de espera. O resultado: Infecção Urinária. Ufa! Receitados alguns comprimidos, saímos em busca da farmácia, na parte alta da avenida. Ergui a cabeça, mais aliviada da dor, e vi brilhante, entre um buraco que parecia proposital nas nuvens, uma lua cheia. Estava centrada do lado da torre de uma catedral. Ali, em sua majestade, com algumas estrelas curvadas em sua direção, a lua pareceu salvar cada pedacinho de tudo. Apontei pro céu e dividi aquela visão linda. Os três sorriam.

Não só um astro no céu escuro, não só uma luz quente em meio a nuvens cinzas, mas como também o cantar de um grilo no meio da cidade, no bater de asas de uma revoada de borboletas numa pracinha esquecida, aí está toda a magia e significância de muita coisa. De um momento único de maravilha. Ouso atribuir até mesmo, de pura felicidade.

A mais pura e sincera felicidade.

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