Sweet Dreams

(relato de semana passada)

Sábado ao entardecer, Mary Jane estava no carro, em retorno ao número 206, após ter passado até o momento na casa de sua tia Sunshine e tio Pete, com Buballoo, Harry, Vox e Petit. Tinha conversado a tarde toda com ele, mas mesmo assim, o fato de ter planejado a semana toda tê-lo e os planos terem sido riscados ainda lhe incomodava. Tinha mesmo de contentar-se com um filme? Mas ela sabia que não tinha o direito de segurá-lo para si. Ele tinha de ver os amigos. Amigos são sempre mais importantes que um romance. Mas Mary Jane não podia conter o desânimo de não poder estar com ele. Ao chegar em casa, quis apenas enfronhar-se em seu travesseiro e passar mais uma noite absorvendo HBO.

Eis que sua irmã liga, para reconfirmar um antigo convite. Buttercup iria ao centro, passar a noite numa casa noturna, num aniversário de uma amiga de trabalho. O desânimo era grande, mas, whatahell! Que mal faria apegar-se a um programa diferente? Talvez pudesse se distrair… Ou talvez tivesse aceitado porquê sabia que estaria perto dele.

Toca rock, e é para se vestir de modo impactante. Use aquela sua roupa, vai saber se vestir para isso bem.

E sabia mesmo.

Passo para te buscar as onze.

Puxou sua meia arrastão pela perna, por baixo de um curto shorts preto de cetim e uma bota até a canela. Uma camiseta branca estampada de credenciais de bons shows por baixo de um bolero preto babado, luvas sem pontas e um chapéu bem alinhados. Coloriu os olhos de puro lápis e rímel e esperou pelo carro. Buttercup estava escondida embaixo de um visual simpatizante do gótico, o que me fez rir muito. Ela deu uma sacada em Mary Jane, que parecia como sempre pareceu.

No caminho, torcia para que a bateria do celular aguentasse pela noite, ansiosa por contato. Guardou-o dentro da bota, para que as chances de não senti-lo tocar tornassem-se nulas. Chegam ao lugar, bem escondido nos altos de uma rua pouco movimentada e mal-iluminada. A entrada era bem apresentada. Mesa de sinuca, um bar vazio, um balcão, retratos de famosos nas paredes, tudo iluminado por neóns, e ao fundo uma grande escadaria de metal vermelha, que levava ao subsolo, à pista de dança. Lugar bem fechado, um ar um tanto envelhecido, sofás pelos cantos escuros, uma pista vazia e um fundo com bar, desta vez, bem servido. Mary Jane encosta-se numa mesa ao lado do balcão do DJ, abaixa a aba do chapéu preto risca de giz e tenta perder-se no ritmo de músicas completamente aleatórias, de pop alternativo, até tecno mal-feito e alguns escassos rocks.

Observa a casa começar a encher, o público começar a dançar, a noite se desenrolar. Se perguntou algumas vezes porquê diabos tinha ido parar ali. Buttercup estava envolvida em alguma roda de amigos.

Então, sentiu o celular inquietar-se dentro da bota. Subiu trôpega pela escadaria vermelha e atendeu.

Querido?

Oi meu amor. Aceitou o convite de sua irmã?

Sim. Devia ver como estou vestida. (risos)

Qual o nome do lugar mesmo?

Eclipse.

Da rua?

Bento Freitas. Está com seus amigos?

Sim, sim. Estamos esperando antes de entrar.

Que bom. Não te vejo hoje não é?

Ham… Não, querida, desculpe.

Tudo bem. Só queria ter certeza… Enfim, divirta-se.

Obrigado. Você também.

Desliga, feliz, de certo modo. Fora para aquilo que não havia desgrudado do aparelho celular. Ele ligar. Ouvir sua voz. Sentiu-se até mesmo satisfeita, ele estava curioso sobre ela. Desceu as escadas e permaneceu ali no seu canto, a casa cada vez mais cheia e a pista cada vez mais movimentada. Troca algumas palavras com Buttercup e sente novamente o chamado dentro de sua bota. Corre mais uma vez escadaria acima, atende ansiosa a ligação.

Querida, perdão, mas esqueci o nome da rua.

Bento Freitas. Eclipse. Alguém conhece?

Não, ninguém. Tudo bem, obrigado.

Okay. Boa noite então?

Boa noite.

Desceu novamente, desta vez um tanto mais cabisbaixa. Ela já sabia que não o veria, mas mesmo assim, a idéia reforçada parecia-lhe uma estranha recém chegada. Naquele seu canto, Mary Jane observou mais um pouco da noite ao lado do balcão do DJ, que parecia ter um estoque interminável de excentricidades.

Começa um ritmo frenético de algo que parecia um tanto quanto pop-rock japonês. A cantora era tão rápida quanto a batida. Dei uma risada tímida, pois sempre simpatizei com aquela origem musical. Olhava de aba baixa para o interior das botas, tão caladas. Então, ao olhar de canto para o lado, quase perdeu o coração pelos pés do subsolo… Dick Grayson vinha ao seu encontro, com um sorriso satisfeito. Tomou-lhe pela cintura, hipnotizando-a com aqueles olhos mel.

Mas… o quê? Como…? Você não…?

Não. Vim te ver. Como posso me concentrar em outro lugar se não estou com você?

E beijou-a. Desta vez, talvez as batidas do coração da garota estivessem mais rápidas que o j-pop. A cena parecia tirada de algum filme antiquado. O lugar vazio, mal-iluminado por neóns. Encostados na mesa de sinuca, onde disputavam uma partida, tinham se abstido do jogo. Abraçados, trocavam declarações.

Minha luz. Eu vim ao seu encontro.

Eu te amo.

Eu te amo.

E toca nos baixos megafones Sweet Dreams. Ironia, destino, coincidência… chame como quiser. Ela considerava apenas uma rotulação… Um par de olhos mel, um abraço quente, uma voz uniforme e forte, envolvente e gentil, que faziam valer toda a noite, toda a semana, toda a espera, a desesperança, ou seja lá o que diabos precise ser mencionado…

Eu te amo.

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