Rastro da lama.

Saí para o quintal nesta chuva e pude observa-la bater na terra, espirrando lama para fora das limitações do azulejo vermelho. Olhei para meus pés, para aquele all star azul surrado, sendo pintado pelas gotas de lama e me peguei respirando muito mais que oxigênio e o cheiro de chuva… Inspirei uma grande dose de nostalgia…

Me dei conta já parada de frente a um grande morro de barro, um moletom surrado, a chuva continuava a cair, mas dessa vez, eu escutava altos rugidos vindos cada vez mais rápidos… E então, motos. Cada doido diferente saltava o grande morro lamacento fazendo alguma birutice no ar antes de tocar o chão. Um amarelo, um roxo, um verde-limão.

Minha expectativa aumentava a cada rasante á minha frente. Então, a moto vermelha aparece no ar, empinada e totalmente eslameada, e meu sorriso toma  o fôlego de um grito extasiado. O motoqueiro de vermelho vira o capacete na minha direção e tira os pés dos pedais, para aumentar a adrenalina, aterrisando maestrosamente no chão de terra.

 

Logo, estou sentada no banco da frente de uma picape, escutando um Rock frenético. Ao meu lado, o motoqueiro com as mãos no volante, e atrás, a moto coberta de lama. Ambos na cabine estão da mesma forma, sujos e duros de terra. Porém, a música irrompia alto o suficiente para ambos animarem-se ao ponto de uivarem a melodia juntos, como se todo o ar do pulmão tivesse  o propósito do próximo acorde. A guitarra invisível no meu colo acompanha o solo do Santana e eu espero ansiosamente para ouvir o bêbado no volante soltar mais um verso desafinado.

 

De volta ao meu quintal, percebo que meu all star azul virou marrom, e meus cabelos começam a cachear, escorrendo a água da chuva ácida desta capital. Até agora, não ousei lavar os cachos, nem a limpar aquele velho all star. Talvez eu ainda esteja parada naquela cabine da Courier, suja de barro. Pelo menos o barro seco imortalizou o meu sorriso, e a chuva lavou as minhas lágrimas.

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3 Respostas para “Rastro da lama.

  1. Morando em uma cabana as margens de um rio, um escultor resolveu registrar todas as suas memórias através do seu trabalho. Por longos anos esse escultor acordou bem cedo para recolher o barro acumulado nas margens do rio. A sua obra era composta de imagens de pessoas que marcaram a sua vida e de símbolos que representavam momentos que ele jamais esquecera. Em um certo dia após chegar de uma viagem, o escultor viu o seu mundo desabar ao encontrar todo o seu trabalho destruído pelas águas do rio que invadira a sua cabana. Sem forças para recomeçar, o escultor desiludido pensou em se jogar no rio para se juntar a sua obra destruída. Chegando ao rio ele percebeu que o leito estava muito baixo para levar o seu corpo. Depois de horas a margem do rio chorando e lamentado a perda de seu trabalho, ele nota que a barragem do rio havia rompido por causa dos vários anos que ele passou recolhendo barro para concluir a sua obra. O escultor então faz uma ultima coleta de barro, senta-se sobre uma pedra, e esculpi um coração que deixa a margem do rio. O escultor vai embora para nunca mais voltar, pois sabia que quando o leito do rio subisse o seu coração teria se juntado a todas as suas lembranças, e assim ele estaria pronto para escrever uma nova história.

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